Quinta-Feira,�23 deNovembro,�2017

5 cenários para a Europa em 2021 – a partir de uma “provocação” de Niall Ferguson

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O historiador britânico Niall Ferguson, professor na Universidade de Harvard, resolveu lançar um cenário de uma Europa bem diferente da atual daqui a dez anos no The Wall Street Journal, com uma ilustração satírica apropriada.


Por
Jorge Nascimento Rodrigues

O artigo de página intitulava-se “2021: The New Europe ” [2021: A Nova Europa] (22 novembro, 2011). “Mas tenham em conta que o artigo era satírico e, por isso, semi-sério”, disse-nos, numa curta entrevista, o professor de história em Harvard, autor do recente livro “Civilização: o Ocidente e o Resto”.

A provocação intelectual de Ferguson caiu num período em que se multiplicam diariamente os cenários apocalípticos sobre a União Europeia – alguns incluindo o ingrediente do regresso a guerras continentais – e mesmo de implosão do euro “por semanas ou mesmo dias”. Pelo meio, políticos e governantes de diferentes potências europeias ofendem-se, amuam em público, e procuram gerar ondas de “anti” este ou aquele país, este ou aquele povo. O que dantes eram piadas e anedotas de salão passam a estereótipos no modo de encarar o que até há pouco eram parceiros do mesmo projeto de união económica ou de zona monetária.

Em uma década apenas, segundo o historiador britânico, o que hoje é uma União Europeia (UE) em expansão, com mais um membro – a Croácia – para entrar oficialmente em 2013 e mais três candidatos (Montenegro, Macedónia e Islândia) à porta, e uma zona euro que tem sete países em lista de espera (Polónia, República Checa, Hungria, Letónia, Lituânia, Roménia e Bulgária), sofreria um processo de fragmentação.

O Expresso ouviu vários especialistas em diversos pontos da Europa e nos Estados Unidos sobre a sátira do historiador britânico e acabou com um portefólio de cinco cenários, em vez de um só. Todos eles têm implicações geopolíticas – e não, apenas, económicas ou de política monetária ou orçamental.

No desenho dos cenários participaram Ian Bremmer (Eurasia Group, sediado em Nova Iorque), Franck Biancheri (LEAP, Paris), Hugo Dixon (Reuters Breaking Views), Constantin Gurdgiev (Trinity College, Dublin), Frances Coppola (bloguer independente, Reino Unido), Dirk Bezemer (Universidade de Groningen, Holanda) e Paavo Okko (Universidade de Turku, Finlândia).

Cenário 1: A sátira de Ferguson – a Europa dos três blocos com capital em Viena

Para o historiador britânico, que deu o pontapé de saída nesta discussão, o eixo franco-alemão conseguiria, na próxima década, consolidar um espaço geopolítico, os “Estados Unidos da Europa” (EUE), desde as praias mais ocidentais de Portugal às ilhas da Grécia, abarcando os Balcãs por inteiro, com capital em Viena de Áustria, em vez de Bruxelas, mas perderia alguns bocados do “bolo”.

A deslocação do centro político de Bruxelas para Viena significaria que este espaço “se inclinaria para a Rússia em questões estratégicas fundamentais”, diz-nos o historiador. E se o sul destes EUE se transformaria definitivamente em destino de férias e de segundas habitações, a Polónia, com os três estados bálticos, criaria uma faixa de atração de investimento, um verdadeiro “cartaz” do liberalismo económico. Sobre a dinâmica desta faixa, Ferguson diz-nos que “a vitalidade destas quatro economias será a sua melhor defesa” e que vê o atual ministro dos Negócios Estrangeiros polaco Radoslaw Sikorski, um ex-correspondente de guerra no Afeganistão e em Angola, como “o líder mais impressionante da Europa”.

O Reino Unido separar-se-ia de vez e levaria consigo a Irlanda. Os Nórdicos regressariam a uma Liga própria, abarcando a Islândia, Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia.

Curiosidade de monta: os chineses transformariam o Reino Unido na sua base financeira na Europa e no Atlântico Norte e o bairro chique de Chelsea, em Londres, na sua montra de vaidades. A City londrina, o principal ativo britânico hoje em dia, manteria a sua projeção financeira global.

Ainda que atribuindo uma probabilidade de apenas 10 a 20%, o economista russo Constantin Gurdgiev, a dar aulas no Trinity College, em Dublin, na Irlanda, admite, também, um cenário de desintegração da atual União Europeia dentro das principais linhas de fratura apontadas por Ferguson. “A Europa teria um declínio ainda mais acentuado como potência mundial, com a emergência de bolsas de competitividade constituídas pelos Nórdicos e por um alinhamento do Reino Unido com a Irlanda, e de uma zona de estagnação em torno do eixo austro-franco-alemão”, refere-nos. Esta balcanização favoreceria o aumento de peso geopolítico da Rússia e da Turquia na balança de poder.

Apesar de otimista, como primeira opção, o inglês Hugo Dixon, fundador e editor da Reuters Breakingviews, teme que, se houver uma desintegração da União Europeia, “vejamos o regresso dentro de uma década da luta entre potências na Europa, ainda que nenhuma delas volte a ser o que era nos séculos XIX e XX”. Uma situação destas favorecerá a Rússia e a Turquia no contexto europeu, sublinha também. “Da perspetiva de Beijing, Washington ou Deli, uma tal Europa parecerá cada vez menos e menos relevante”, acrescenta.

Cenário 2: A União Europeia em pleno, uma potência mundial

“É fácil ser apanhado nos títulos bombásticos dos media, que são tão voláteis quanto o sentimento dos ditos mercados. O que é importante é ter uma visão de longo prazo. E, no longo prazo, a UE é benéfica para os seus membros do ponto de vista da segurança. E a zona monetária única é um espaço mais eficiente de comércio”, sublinha o norte-americano Ian Bremmer, um cientista político fundador do Eurasia Group, sediado em plena 5ª Avenida em Nova Iorque. Mas admite que o mundo é hoje um local “com muita balbúrdia”.

“A Europa está a transformar-se numa entidade soberana e muito antes de 2021, este semiestado estará praticamente completo”, refere-nos, por seu lado, o francês Franck Biancheri, fundador do Laboratório Europeu de Antecipação Política, um think tank europeu sediado em Paris. Biancheri antecipa que “por volta de 2014 haverá uma governação integrada, incluindo uma união orçamental”. “Logo que esta histeria sobre a desintegração da zona euro passe – em 2012 -, as opções serão claras e sem grande margem para manobras”, acrescenta, referindo que a sátira de Ferguson se baseia numa “visão muito britânica sobre a Europa continental”. Não duvida que o Reino Unido tente transformar-se num centro offshore, mas acha que essa dinâmica não atrairá a Irlanda e inclusive provocará a separação da Escócia. Também considera desfasada a visão de que a Europa será dominada pelo “sacro império alemão”: “é uma abordagem mais de tablóide, do que de académicos”. Considera, ainda, que Ferguson subestima o papel dos franceses em todo este processo. “Esperem por um novo líder francês que agarre a oportunidade a partir de meio do próximo ano”, conclui.

Hugo Dixon, também, é otimista. “A crise atual é um momento de verdade. A Europa poderá entrar em caos ou em catarse. A minha opinião é que seguirá por este segundo caminho. Em dez anos, a Europa terá menos gorduras e estará em melhor forma, e será um poder mais unido no mundo. A moeda única será um sucesso”, afirma este ex-jornalista do Financial Times e do The Economist, formado em Oxford em Política, Filosofia e Economia.

Cenário 3: União Europeia perdendo peso mundial e zona euro encolhendo

“A União Europeia (UE) não se vai desfazer, mas a zona euro sim”, diz-nos, por seu lado, Dirk Bezemer, professor do Departamento de Economia da Universidade de Groningen, na Holanda. Bezemer é de opinião que o movimento de enfraquecimento é mais amplo do que se julga: “as instituições monetárias e políticas que basearam a Europa e os EUA estão em desintegração”. A razão, diz o professor holandês, é o facto “de se terem tornado dependentes dos chamados mercados, enquanto se endividaram junto da Ásia”. A consequência será drástica: “Os tais mercados estão, agora, a esfrangalhar esses sistemas e, daqui a algum tempo, Europa e EUA serão forçados a vender os ativos à Ásia”. O resultado no mapa-mundo geopolítico é a manutenção dos EUA e de um núcleo duro na Europa, mas “com a ação a decorrer, na realidade, na China e na Índia”.

Um regresso a um figurino de uma UE anterior ao euro, sem moeda única ou “união orçamental”, é um dos cenários com uma probabilidade de 40 a 45%, segundo Constantin Gurdgiev. “Este seria um dos cenários benignos de uma transformação drástica da zona euro, pois preservaria os principais benefícios da União, os mercados comuns para o comércio intra-europeu, a mobilidade do capital humano e os fluxos de capital”, refere-nos o economista russo.

Para o professor finlandês Paavo Okko, “a zona euro será muito mais pequena do que agora, tenderá a identificar-se com o que chamam de zona euro reduzida, que já está em gestação”. No entanto, a desintegração desse núcleo duro poderá ocorrer se a França entrar em sérias dificuldades nesta década. De qualquer forma, o professor da Universidade de Turku, espera que a União Europeia não engorde mais, que daqui a dez anos fique como está hoje em termos de fronteiras. Vê, no entanto, uma oportunidade para a região onde a Finlândia se insere. “Se a Rússia se transformar num membro sério da Organização Mundial do Comércio, a zona do Mar Báltico pode ter um disparo económico”, conclui.

Cenário 4: Europa fragmentada e o novo papel do Mediterrâneo

A situação dos periféricos da zona euro pode agravar-se e o caminho da insolvência conduzir esses países para fora da moeda única e mesmo da UE. O que os poderia levar a procurar outras alianças. Esse é o cenário, surpreendente, adiantado pela inglesa Frances Coppola, que foi analista durante dezassete anos em bancos britânicos e internacionais. “É uma possibilidade que Ferguson não explora. Os países periféricos do euro em situação de incumprimento podem preferir juntar-se aos estados do Norte de África formando uma União Mediterrânica, em vez de aceitarem as regras estritas da Alemanha”, alvitra Coppola. Com uma possível democratização nessa região do Magrebe e com o envolvimento da Turquia, o Lago Mediterrânico voltaria a ser um espaço a dar cartas na geopolítica.

Coppola, que hoje é professora de música, ainda que continue ativa no comentário financeiro, admite que essa União tem fraturas internas de relevo, como as religiosas e de choque entre estados confessionais e estados laicos, e rivalidades ancestrais como entre a Grécia e a Turquia. Mas acha que “a China e a Rússia poderão apoiar uma tal iniciativa, por razões económicas e estratégicas”.

Esta emergência do Mediterrâneo iria a par de uma fragmentação global da UE, mas com uma geometria diferente da de Ferguson, adianta Coppola: o Reino Unido, a dado passo, sairá da União, depois de um referendo e poderá virar-se para a “sua” Commonwealth; os Nórdicos, “tal como no festival da Eurovisão”, formarão um bloco próprio, em que “não me espantaria se já andassem a pensar nessa solução”; a Áustria poderia liderar um bloco de leste, onde as relações com a Rússia poderiam levar a uma aproximação estratégica; e, o resto, o núcleo central da atual UE, continuaria com o euro e com os dois protagonistas do eixo franco-alemão, “unidos com uma cola, por medo de que estoire alguma guerra entre eles”.

Cenário 5: União Europeia com uma “coroa” periférica de estados autoritários

É um dos cenários de maior retrocesso político. Se a UE continuar envolta numa crise duradoura, pode gerar situações de alto risco sobretudo na periferia “resultado de enorme descontentamento social que poderá gerar volatilidade política”, adianta Ian Bremmer. “Os países da periferia, em condições extremas de stresse económico, podem afastar-se da democracia em direção a regimes autoritários. Já se verificaram sinais de uma trajetória dessas na Hungria, por exemplo”, prossegue o especialista em risco internacional.

Ele vê uma janela de oportunidade para regimes desse tipo, jogando com as contradições entre as potências regionais europeias e mundiais, como já aconteceu no pós-guerra em alguns casos. Portugal, Espanha e Grécia vêm rapidamente à memória na conversa. “É, sem dúvida, mais difícil do que então, mas é um cenário plausível. Há mais alguns países frágeis a leste, como a Roménia”, conclui Bremmer.

 

 

 

Jorge Nascimento Rodrigues é editor de www.gurusonline.tv, www.janelanaweb.com e geoscopio.tv. É igualmente Editor Executivo da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão e colaborador do semanário Expresso.

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Este comentário foi originalmente publicado no Janelanaweb.com dia 22 de Dezembro 2011

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