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Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor, puxando pelos chamados farfalhos da memória, faz um exercício de superior intelectualidade sobre o reflexo da acção e personalidade de presidentes americanos no comportamento de Gaddafi, em demonstração clara da asserção do Teoria dos Jogos indicada no título).

A Teoria de Jogos incide sobre o comportamento racional das pessoas em interacção e até um psicopata como Gaddafi age desse modo, embora eventualmente com premissas desviantes, e o simpático coronel, com aquele ar de beduíno gay vestido à Armani de contrafacção, fê-lo de maneira continuada, reagindo aos estímulos de prémio e castigo de forma pensante, quase previsível.

Realmente, o princípio do "pau e cenoura "funciona maravilhosamente em todas as pessoas em quem resida uma sombra de actuação lógica. Ao longo do seu longo e animado percurso na ribalta, o ditador, no plano internacional, ofereceu muitas oportunidades aos estrategas e psicólogos de estudarem um caso de déspota que gosta de testar a resolução dos oponentes até ao limite. Porém, os europeus ofereceram demasiadas oferendas por comportamentos positivos e mínimas punições pelas provocações, e só do lado americano vieram necessários correctivos ou ameaças inibitórias. Aqui, na Europa, não faltam julgamentos hipocritamente morais na maior ausência de actuação de firme responsabilidade: "Wetties"(1), como chamava Thatcher aos seus parceiros conservadores, avessos a medidas duras. Se recordarmos que a Líbia é o mais recente presidente do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas(!), com fortes abstenções europeias, veja-se ao que isto tinha chegado no desmando exagerado de premiar alguma cooperação... e fazer ricos negócios.

Como qualquer ditador psicopata e megalómano que se preza, Gaddafi lá decidiu espraiar-se por aventuras internacionais do mais variado topete, pelo que teria que se cruzar inevitavelmente com os EUA. O nosso argumento de hoje passa por verificar como o comportamento do homem foi sempre condicionado pelos vários presidentes americanos, dum modo curiosamente reflexivo, em avanços e retracções que, na minha maneira de ver, extravasaram a proporção para um lado ou para outro. Também me dá para pensar que o "manu a manu", mais que a política institucional, explicou esse percurso de picos e vales.

O aventureirismo gadaffiano fica nos registos históricos de criadores de sarilhos, um "troublemaker", como lhe chamava o falecido Halbrook, a partir de um país sem massa crítica, quando nenhuma pode ser melhor, como no caso da Al Qaeda. Claro que o petróleo paga muita coisa, mas o resto, belicoso e expansionista, parte da vontade de uma só pessoa, um tirano oriental, para usar a expressão (não conceito) de Marx. Financiou o terrorismo internacional e meteu pessoalmente as mãos no assunto, como em Lockerby (sabe-se agora, para além da antiga forte suspeita); tentou dar corpo ao panarabismo, mas, como não era Saladino nem Nasser, virou-se para o panafricanismo, também com pouco êxito, como na humilhante derrota no Chade, nos anos 70; tentou a sua sorte no expansionismo marítimo, no Golfo de Sidra, mas a força aérea americana acabou rapidamente com o assunto ; e até um programa nuclear teve na forja, com cumplicidade de outro perigoso lunático de serviço, Kim Jong Il

E como o trataram os presidentes americanos, ilustrando a minha teoria? Mesmo um "cão raivoso", como lhe chamou Reagan, tem o sentido da sobrevivência e andou em conformidade. No tempo de Carter, mole e defensivo, passeou-se com impunidade, desde Munique ao Niger. Clinton, não era para brincadeiras, e patrocinou as sanções económicas que deram azo a atentado e golpe de Estado, em meados dos anos 90, mas não lhe cortou a inspiração.Já Reagan, personagem, que na minha galeria vem logo abaixo de Miles Davies, pô-lo definitivamente na reforma terrorista, tal o susto com os bombardeamentos de Tripoli e Bengazi. Quanto a George W. Bush, parece que o destino de Sadam e repelentes filhos deu uma boa inspiração a Gaddafi, daí em diante em permanente sorriso e busca de incentivos positivos. Q.E.D.

E Obama? Parece que o coronel é fã, enquanto "irmão árabe", mesmo na "ditadura americana". Palavra!

(1) Literalmente, "molhados".


* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

Publicado no Jornal de Negócios dia 4 de Março de 2011

 

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