Sexta, 11 Março 2011 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, membro de um paÃs à rasca - não há exclusivos para a juventude - e à espera de regeneração, lembra que com sistema partidocrático e vencimentos medÃocres obtêm-se polÃticos medÃocres e, portanto, extremamente caros).
Quem não quereria ter uma elite nos órgãos públicos eleitos ou de nomeação polÃtica? A dita boa governança só acontece com métodos e princÃpios superiores, mas, se os agentes responsáveis não forem em conformidade, o resultado só pode ser negativo.
O estado catatónico a que chegamos tem aà uma das principais razões, conclusão muito pouco arriscada quanto mais não seja por exclusão de partes. O regime socialista de Estado excessivo e despesa a eito , pode explicar muita coisa, mas sem os polÃticos que lhe dão expressão não chegaria a este ponto. De resto, desde o 25 de Abril, fazendo 'pé sanga' no PREC e na Grande recessão, tudo correu bem, com inundações de fundos de coesão, alargamento de mercados, moeda sólida e juros baixos, oportunidades únicas que já não voltam. Mas com esta gente…
E como se atraem para a polÃtica os melhores valores? As motivações para a função são conhecidas: ideologia, vontade de serviço público, interesse em sobressair e exercer poder, remuneração atraente. No sistema constitucional, legal e prático que temos, a predominância dos partidos funciona como método de estiolar o talento e cativar a subserviência, ao mesmo tempo que captura o Estado e as suas ramificações nas empresas públicas e de prático monopólio.
Não se entra nas listas para o Parlamento a não ser dentro dos partidos e com beneplácito das chefias e a recompensa vai para a fidelidade e militância, preterindo a diferença, a ousadia e o mérito. Claro que nem todas as velas desta igreja ficam apagadas, mas que o incentivo para os melhores se desvanece, isso é incontestável, como se se tivesse descoberto uma rede donde foge o peixe mais valioso. Não se entra nas empresas do Estado ou de sua influência sem cartão do clube polÃtico e chega a ser deprimente como os partidos predominantes, principalmente o que está no poder há 15 anos menos 3, põem e dispõem sobre as nomeações, que até escorrem para os postos intermediários e menores. Há dias o presidente da Câmara de Guimarães vituperava a socialista presidente da "Capital Europeia da Cultura" por esta, pessoa aliás talentosa, ter contratado um também talentoso economista simpatizante do PSD!
Este autarca cometeu o erro de falar, ainda por cima achando desejável o sistema de designação por "boys", na expressão celebrizada por Guterres; agora imaginem o que não se passa pela calada. E ainda ficam postos de duplicação que servem para recompensa partidária, como os famosos governadores civis, ou as nomeações polÃticas para as direcções-gerais. É um Estado enorme que fica aguilhoado e incrustado de parasitas e lapas difÃceis de extrair e, assim é seguro que de permanente só vamos ter a crise.
Por outro lado, uma motivação a todos dirigida está na remuneração, e esta , possivelmente, é das poucas que residualmente ficam entre as que citei acima, numa época em que os "ismos" quase desapareceram e o dever público é para candidatos à santidade. Então, com grande sentido de inoportunidade, sustento que os pobres dos polÃticos são claramente mal pagos se se lhes pede qualidade pessoal, integridade exemplar e resultados eficazes, e que, como se colhe o que se semeia, não teremos que nos queixar. Não vejo como se vai atrair sistematicamente para os mais altos cargos a nata profissional ou empresarial sem uma remuneração pelo menos aproximada ao que o mercado ou a carreira pagam ou pode vir a pagar no percurso da vida. Até dou de barato que essa gente tem paciência para se sujeitar à mais absoluta devassa, crÃtica acrÃtica e defensordemourismo, e que no pagamento não haveria por isso de se incluir um prémio .
Ora, a não ser eliminando o monopólio partidário absoluto e promovendo o pagamento generoso e transparente dos agentes polÃticos, estaremos continuadamente a incluir na carruagem da governação a incompetência, a corrupção, o nepotismo, a obscuridade dos interesses. O regime está a definhar e a morrer, já não há eleições que lhe valham dentro deste quadro, e coisas como estas são apenas pequenas partÃculas no caminho para a regeneração da república democrática.
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
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Publicado no Jornal de Negócios dia 11 de Março de 2011
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