Terça-Feira, 22 de Maio, 2012
Bons_Investimentos

GoldDirect.pt


logo_golddirect-pt

Twitter BInvestimentos

Facebook BI

Bancarrota e expiação

Fernando-Braga-de-Matos

Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor, cheio de equimoses como qualquer membro da classe média que se preze, sustenta que, com melhores ou piores apresentações, o governo é o faz-tudo da troika e antes fazer o trabalho sujo bem feito do que cair no vício grego - salvo seja! - pois a soberania está a 50%, o que em bancarrota ainda é bem bom).

Os devedores caloteiros que têm por onde ser penhorado estão feitos: Vem o tribunal, executa a casa, é-se posto na rua; a mulher foge com um senhor de idade; os amigos mudam de passeio com medo de serem cravados . Outrora, ia-se para a prisão por dívidas e, com mais outroras, até se caía na escravatura. Um inferno.

Com as nações o princípio é o mesmo e o desdém público igual, mas não há a hipótese redentora de fugir para parte incerta. São curiosíssimas as histórias das bancarrotas internacionais ( interessantemente iniciadas, enquanto declaração, pela Espanha, em 1557, 3 anos antes de vir buscar o património português) e o modo de atirar a toalha ao chão até dá para eu ter um catálogo, do estilo Lombroso, para poder chegar ao modo português:
Há os caloteiros em série e, vingativamente, aponto a Espanha que conseguiu falir sete vezes no século XIX, esperando que desta vez nos deixe sozinhos nesta nossa dor; depois, há os arrogantes, estilo Equador esquerdista, duas vezes falido neste milénio, com o presidente, absolutamente "teso, a declarar ao mundo que tinha dado ordens para não pagar os juros da dívida, género "não pago porque não quero"; para calote soberano, temos o do Egipto, no século XIX, que passou mesmo a protectorado, como se costuma lembrar aos devedores relapsos quando a malandragem dos credores passa a dar ordens; a acrescer , temos um género cheio de estilo, o intelectual, que se esquiva ao pagamento, invocando a chamada "dívida odiosa", a contraída para fins pérfidos por um sinistro regime anterior, o que aceitou as letras, como o Iraque post- Sadam. E nós?

Portugal, país de gente peculiar, passou por um psiquiatricamente interessante processo de negação, aceitação e arrependimento, e espera-se que o decurso doloroso dos sacrifícios seja processado com competência e capacidade de reabilitação, não bastando mandar Sócrates tomar cicuta nem simplesmente substituir Teixeira "bancarrota" dos Santos por Vítor "publicano" Gaspar.

Quando o ministro da Finanças sai da cretina "boutade", mal compreendida, de "ir para além da troika" e assegura que o objectivo das penosas medidas é assegurar o exacto cumprimento quantitativo do acordo e que a execução até ao momento é auspiciosa, dá-nos a esperança de que a "expiação" seja redentora para um país onde finalmente se fazem contas. Assumir os termos acordados é do nosso interesse, não é purgar um pecado ou sofrer punição por malfeitoria, pois, se tivéssemos alternativa, fazíamos como o idiota do Equador .

O nosso estilo de bancarrota, civilizado e eficiente, permite-nos receber a ansiada "tranche" da troika, sem a qual o país entra em ruptura económica, o que é uma palavra grande para consequências ainda maiores; prepara-nos para entrar de novo no circuito do crédito, com juros mais baixos e credibilidade retomada, num mundo onde a boa reputação é um inestimável valor; possibilita manter o euro como moeda, quando, ao contrário, ocorreria o pesadelo dos activos em escudos e as dívidas em euros.

Não estivemos a perorar sobre ideologia mas pragmatismo e sensatez, pois não há outra opção que alguém tenha apresentado. Por isso, não posso deixar de referir que são preocupantes as vozes de pura contradição, com o relevo para Mário Soares, pelo peso pessoal, ao afirmar que "o memorandum da troika não é a bíblia", lembrando um outro presidente seu sucessor para quem havia "mais vida para além do défice", com os notáveis resultados que nos puseram onde estamos.

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar


Publicado no Jornal de Negócios dia 9 de Setembro de 2011

 

Comentários (0)

Subscrever RSS deste comentário.

Exibir/Ocultar comentários.

Escreva um comentário.


busy

AVISO: A informação contida neste website foi obtida de fontes consideradas credíveis, contudo não há garantia da sua exactidão. As opiniões aqui expressas são-no a titulo exclusivamente pessoal. Devido à variação dos objectivos de investimento individuais, este conteúdo não deve ser interpretado como conselhos para as necessidades particulares do leitor. As opinões expressas aqui são parte da nossa opinião nesta data e são sujeitas a alteração sem aviso. Qualquer acção resultante da utilização da leitura deste comentário independente do mercado, é da exclusiva responsabilidade do leitor.