Domingo, 1 de Agosto, 2010

Perfis Sociais

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Bancarrota Moral

Fernando-Braga-de-Matos

Por Fernando Braga de Matos*

( Onde se entra em divagações filosóficas sobre a dialéctica espírito-matéria e se conclui  que em Portugal, na prática, podemos ficar tranquilos, porque não nos encontramos  mergulhados apenas na bancarrota financeira mas igualmente na derrocada moral  e, de tal modo, que se mais bancarrotas houvera mais bancarrotaríamos).

Como dizia Almada Negreiros,  “espírito e matéria confundem-se em vida”, e eu permitir-me- ia ver, em sociedades decadentes , a agregação  do material na moral, chegando a uma ligação de parasitismo, até à míngua e desfalecimento da última.

Cá por mim, sempre detestei pregadores moralistas, pelo que descansam os leitores que não vão gramar um sermão da montanha. Vão gramar, sim, o enjoo de quem está cansado de falta de saneamento básico, político- social, nestes  tempos em que “palavra de honra” já só é uma imprecação, não um juramento inabalável. Realmente , estamos mesmo no nível Zero, e isto é porque o supermercado não tem garagens.

Podía-me lembrar das sanguessugas  dos “bancos” que Teixeira dos Santos salvou (1) ou, pior ainda, dos humúnculos predadores de crianças, a quem, muito mais que vilipendiar o corpo roubaram a alma. Mas, estes dramáticos eventos podem sempre ser entendidos como epifenómenos que envolvem pequenos números, não pandemias que deixam a terra coberta de sal. Agora vejo antes uma estranha pirâmide doentia, que vem de cima e envenena sucessivamente tudo por aí abaixo, pois o exemplo do alto é o que mais faz disseminar a praga.

Estamos cada um por si , excepto nas associações de pequenos interesses que é o máximo de agregação social que se consegue vislumbrar, e que têm por finalidade sacar o maior bocado a que se pode deitar a mão. Vejo os funcionários públicos com pinturas de guerra , pois querem aumentos de 4%, à custa dos contribuintes e em prejuízo dos trabalhadores do sector privado que não têm sequer emprego assegurado e vão a caminho do desaparecimento de apoios sociais. São os tais que Teixeira dos Santos comprou com cerca de 4% reais, quando se tratava de ganhar as eleições, a bem ou a mal.

Pergunto-me se muito não tem a ver com esses post-moderninhos, de cabeça vazia ou tóxicos na mão, que, curiosamente, se encontram em lugares de influência e até predominância, com as revoluções sociais absurdas, ideias “futuristas” sem suporte empírico mínimo , com esses legisladores que evitam o erros ortográfico(graças ao “Word”), mas não o de sintaxe, e fazem jorrar reformas, leis confusas e contraditórias, sem sedimentação ou ajustamento social.  Estes gajos que fazem leis de divórcio-repúdio, desprotegendo as mulheres e inundando os tribunais de família de questões que têm por fundamento a própria idiotia legislativa; que legislam a favor do aborto subsidiado pelos contribuintes, mas não se lembram de  medidas a favor das famílias,  num país em acelerado processo de envelhecimento; que impõem a união de facto e o seu acervo de deveres a quem queira viver sem compromissos; que atiram com pão, mas não com circo, aos nascituros, felizes utentes de uma conta de 400 euros a receber aos 18 anos, quando a sua quota da dívida pública acumulada será muitíssimo superior; que fazem leis penais à medida dos sócios,  as quais têm de ser rapidamente revogadas,  senão a ordem pública,  um dia,  passará a depender da auto-defesa; ou que descortinam uma lei  admitindo o casamento homosexual, invocando um direito constitucional, mas que imediatamente a fabricam incluindo uma manifesta inconstitucionalidade, num joguinho para deixar entrar pelo sótão o que parecia (para os parolos) impedido pela porta: a adopção. Não passam de gente de ejaculação precoce, num frenesim de parecer que chegaram ao fim, em auto-presumido sucesso.

E o polvo do ataque à imprensa? Não mete nojo?

Mas esta gente não fica cá eternamente, apesar de o jogo da conquista e  conservação de poder vá resultando, porque todos os meios servem; o que interessa é , apenas, não ser apanhado por uma Justiça que, ontologicamente,  já só possui o nome para colocar às portas dos tribunais.

Um final de esperança , porém: até a Peste Negra desapareceu , como por esgotamento. Os bulbos bubónicos,  um dia, extinguem-se.

 

(1)É evidente que o sistema financeiro tinha que ser salvo e isso foi feito. Mas atrasar mais que um ano todas as soluções porque havia eleições para ganhar, indiferente aos custo e à ansiedade das pessoas, sedadas  por promessas?...


 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

Publicado no Jornal de Negócios dia 12 de Fevereiro de 2010

 

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