Sexta, 04 Junho 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde se sustenta que na putrefacta situação em que o país se encontra é necessário mobilizar os portugueses, impondo-se uma liderança credível, um discurso de verdade, a capacidade de mostrar os caminhos exactos, bem como a galvanização para o objectivo, a chamada “luz ao fundo do túnel” – isto é, uma evidência tão completa que só a cegueira histérica, como a do filme de Woody Allen, impede de ver).
Um dos livros realmente interessantes que desbravei no ano passado é o aclamado “Animal Spirits”, escrito por um homem de Princeton ( a universidade que editou a obra), várias vezes citado nesta coluna, Robert Schiller, e George Akerlof, Nobel de 2001 pela sua contribuição ao ainda novo ramo da economia comportamental. Os “espíritos animais” nada mais são que os elementos psicológicos que determinam o comportamento do “homem económico”, muito mais que a estrita racionalidade que a economia clássica assume(1). O baptismo, enfático e significativo, foram os autores extrai-lo de uma passagem de Keynes na sua famosa “Teoria Geral do Emprego, Juros e Moeda”, livro de tal modo marcante que até alguns economistas o chegaram a ler.
Então, nos pilares da Economia encontram-se os “espíritos animais”, o primeiro dos quais será “a confiança e os seus multiplicadores”. Toda a gente já viveu momentos de euforia geral em que a confiança no futuro extravaza por completo a expectativa de senso comum, e o seu contrário, quando os valores deflacionam já tão só pelo pessimismo reinante e não por sérias razões objectivas. A confiança (ou falta dela) está, pois, no desenvolvimento económico e na formação dos ciclos que, por muito que intervalarmente se vá julgando estarem controlados, teimam sempre em reaparecer.
A confiança produz-se nas pessoas pela percepção objectiva dos fundamentais da economia, antes de a mente a interiorizar e motivar comportamentos de optimismo e mesmo de exuberância que vão acelerar o tendência vigente do ciclo económico. Aqui não são necessários supérfluos discursos dos políticos a navegarem o êxito, mas o mesmo não é verdadeiro em situações confusas ou críticas. Esclarecer , definir rumos e motivar torna-se, pois, um imperativo de boa governança, nesses momentos.
Mourinho não estando disponível, um dos grandes dramas do momento é a falta de gente simultaneamente com autoridade, credibilidade e amplificação das pronúncias. Há o Presidente da República, claro, mas as limitações constitucionais do cargo impedem-no de mencionar a parte executória. Trouxe o caso no discurso do Ano Novo e as sondagens revelaram que, pela primeira vez, a generalidade das pessoas foram sensibilizadas para a profundidade da crise. Havia o Governador do Banco de Portugal, mas esse, só de saída para Frankfurt, avançou com umas verdades desagradáveis. Existe um ministro das Finanças, mas esse tendo entrado da deriva politiqueira com as eleições legislativas já se desabituou do discurso do rigor, Além do mais é demasiado dependente do primeiro-ministro e entrou na sua zona de Peter nas suas declarações surreais sobre o défice orçamental que passou em uma ano de 2,9% a 9,7%. Isto é muito grave porque a reputação demora uma vida a construir-se e um ápice fátuo a evaporar-se. Neste momento, até dá para lembrar que, sucessivamente, sempre com os acontecimentos a passarem à frente, o país tinha evitado a crise, fora o primeiro a sair dela, os défices gémeos eram negligenciáveis, afinal eram são graves mas a Grécia é que realmente caira na desgraça, o sistema estaria fundamentalmente bem apenas sobressaltado pelas agências de rating e uns seres extra-terrestres chamados “especuladores”. Somadas e desfiadas estas ridículas ilusões sucessivamente, só nos podemos lembrar do palhaço rico no Circo Chen a fazer rir os adultos e a desenvolver a imaginação irreal das crianças.
Claro que já estamos a falar de Sócrates e do discurso de chacha que provoca riso amarelo em metade do país mas vai desiludir amargamente quem nele depositou confiança. Não é possível animar as hostes para assumir civicamente sacrifícios quando os sentimentos que cria são os que referi. Eu nem percebo bem o que se passa com ele, já nem sei se é apenas um mentiroso compulsivo agarrado ao poder ou se, afinal, não percebe mesmo nada do que se está a passar, porque criou mecanismos psicológicos de racionalização que lhe obliteram o raciocínio sobre a realidade: só vê o que deseja ver e ignora o que seja disconforme com o mundo virtual que construiu para si mesmo.
Que pensar de um PM que vai a dizer um discurso até à reunião com a Comissão Europeia e ministros e sai a dizer outro completamente diferente, queixando-se que o mundo afinal mudou subitamente? Não é seguramente este penoso personagem que consegue fazer o discurso do “sangue, suor e lágrimas”, forma o povo em falange e acaba com os louros do triunfo. Para mal de todos nós.
(1)Na sua modéstia, o autor vem defendendo idêntico ponto de vista, desde 1993, nos seus livros e crónicas. Não se sabe bem porquê, nunca foi proposto para o Óscar, digo, Nobel.
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 4 de Junho 2010
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