Sexta, 05 Agosto 2011 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, tornando-se no centésimo milésimo comentador que escreve sobre o assunto, faz considerações relevantes, subtis, insidiosas e consequências sobre a recente remodelação do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos, concluindo que afinal houve tudo menos surpresas, pelo que a Caixa das ditas é apenas para os que como eu as esperavam auspiciosas).
Ainda está o Governo apenas com um mês e tal de actividade e já nos meios ditos bem pensantes do comentário e da opinião vai um alarido tonitruante que daria para fazer rejubilar os que nele acreditam, segundo o princÃpio de D Quixote: " Os cães estão a ladrar, Sancho, isso é sinal que vamos a galope". Mas irá mesmo a toda a brida, como a catastrófica situação em que nos encontramos necessariamente impõe? Na parte do sangue, suor e lágrimas já se sentem os fluidos, para já com a complacência de uma população cordata e consciente que o regabofe terminou. Mas no restante, fora uns sinais auspiciosos de contenção e boa governança, ainda estão por ver indÃcios, e ainda menos provas, de que a prometida e essencial demolição do Estado mancha de gelatina se tenha iniciado e que a purga da clientela obesa e incompetente haja iniciado os seus efeitos, com substituição das práticas de favorecimento, corrupção, obscuridade e compadrio que inquinam o PaÃs há anos.
O ataque à despesa do Estado é evidentemente muito complicado até por haver que descobrir os labirintos do poder efectivo, reconhecer o que tem valia e em que medida, e isto nem falando do tenebroso exercÃcio de detectar e extrair redundâncias. Já vimos que em Portugal quem vai para o poder tem uma deficiente informação sobre a organização e funcionalidades do Governo e da administração e que o mero inventário das questões dá para meses. Parece ser impossÃvel chegar a Belém com domÃnio dos dossiês e iniciar um compacto de medidas substantivas de execução imediata, mesmo com a pressão da SantÃssima Trindade, que é como quem diz a chamada troika. Dizem-nos que para os idos de Agosto teremos a tarefa em execução visÃvel, mas no entretanto fica na discussão pública o BPN, a Caixa e outros pontos que levantam atrito e polémica, muitas vezes chicaneira.
Ora este não é um governo como outro qualquer, pois não só não existe continuidade de rota, como bem pelo contrário se impõe uma necessidade de ruptura, exigindo um inédito consentimento dos governados, em geral pouco propensos a balanços e incertezas, e necessitando, para paz social, de tratamento equitativo, explicações rigorosas e mudança de práticas.
Ora, o Governo necessita de uma imagem a condizer com a "colossal" tarefa que tem pela frente e não pode enveredar por modos ambÃguos ou cinzentos e dar-se ao luxo de que as coisas se expliquem por si próprias. O PS-Sócrates tinha em funcionamento uma poderosa máquina de propaganda, em que a desinformação intoxicante era prática permanente. Agora exige-se verdade e transparência, mas também uma máquina de idêntico poder porque a pomba do EspÃrito Santo não entra neste jogo e o conhecimento, até argumentativo, tem que chegar ao povo.
Por estas razões, em grande parte formais, não fiquei particularmente agradado com a volta na Caixa Geral de Depósitos, que deveria, até pelo simbolismo, romper com os métodos consuetudinários. A Caixa, para os portugueses, é um bocado como o Benfica, um pedaço da pátria e, por isso, em obediência aos argumentos acima aduzidos, bem merecia uma apresentação governamental pública. Desta maneira, coisas como o novo modelo de governação nem surgiram a público como na realidade são, isto é, fortes sugestão da "troika, e estou apenas a exemplificar. Vieram, pois, todo o tipo de elocubrações bem audÃveis, num arruÃdo confusionista.
E quando se quer afastar o espectro da partidarite e das incompatibilidades, porque incluir Fernandes Tomás e Rebelo de Sousa, por muito excelentes que sejam? Estou a deixar de fora
António Nogueira Leite, pois alguma excepção teria que haver, mas esse não é propriamente um Rui Pedro Soares, lÃdimo administrador da PT, tendo com único curriculum a filiação no PS, que até tratava o então primeiro-ministro por "chefe", num certo jeito sopranesco, de triste memória.
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* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
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Publicado no Jornal de Negócios dia 5 de Agosto de 2011
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