Sexta, 06 Agosto 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor aponta fraseologia de esquerda, usada por gente que vai do PC ao PS, que não passa de álibis verbais para actos continuadamente repetidos, levando o PaÃs alegremente ao fundo, nomeadamente "direitos adquiridos", "justiça social" e "economicismo").
Há que definir um pressuposto para efeitos de tornar absolutamente compreensÃvel aquilo que se vai dizer, esse baseado no pragmatismo, o grande princÃpio de valorizar apenas o que resulta ou resulta melhor. A observação histórica e a evidência empÃrica não deixam dúvidas sobre o que dá frutos, sendo que a base fornecida nos séculos XX e XXI é suporte mais que suficiente. Então o que vemos? Não há socialismo que resulte (social-democracia é espécie diferente), onde entra o Estado como actor principal a fruta sai podre ("garbage in, garbage out"), e nem se faz entrar no cômputo os regimes ditatoriais. Nos regimes mistos, se a economia não for dirigida por mercados livres e concorrenciais, pela iniciativa privada e pela propriedade privada, a droga é quase a mesma. Nos excelentes regimes do Norte da Europa - onde ciclicamente aparecem graves problemas, não há coisas perfeitas -, o Estado tem primazia tão só onde o Estado social sustentável (leia-se de novo, "sustentável") tem o seu predomÃnio. No resto, o domÃnio claro é do liberalismo. E se a catástrofe da Grande Recessão dá que pensar, repare-se que o defeito ocorreu numa omissão de regulação apriorÃstica necessária no domÃnio do chamado sistema financeiro-sombra com produtos inovadores não testados suficientemente - coisa que só uma roda-livre idiótica pode aceitar. E, acima de tudo, veja-se: passada a crise (mas não os extremos danos), o regresso foi para o mesmo, rectificado necessariamente, mas não para um sistema alternativo.
Nós, por cá, temos uma constituição socialista matizada, 60% de eleitorado votando à esquerda e 15 anos de PS de matriz despesista e estatista. A continuar assim, não vamos a lado nenhum e o povo, muito naturalmente, vai votando para o lado que dita a maré, e esta, depois de um regime ditatorial de direita, virou fortemente para a esquerda e assim continua. Nos paÃses europeus de Leste ocorreu o contrário e o destino é bem melhor, com excepções, obviamente. Em Portugal, a sedução para o povo vai por meio de imagens atractivas, mas infelizmente prejudiciais no final. Uma visita:
Direitos adquiridos: - Curiosamente, ou nem por isso, já eram protegidos no tempo da ditadura, mas agora têm suporte constitucional, uma autêntica obra-prima de fantasia, sem sequer haver uma rede protectora na palavra "tendencialmente", como nos cuidados de saúde gratuitos. Claro que não pode haver direitos garantidos na zona económica, esses têm que ser fornecidos pelos avanços e crescimento, ou, podendo-se, por desvalorizações de moeda. E por isso, quando os cidadãos do Togo se lembrarem de reclamar por um sistema de saúde igual ao da Dinamarca, ou coisas de igual cariz, a resposta será evidente para eles - mas não para nós. Aqui tem-se direito porque sim, não porque se tenha trabalhado e produzido em conformidade e o euro é, espera-se, para ficar.
Justiça social: - Esta corresponde a um avanço civilizacional e, como ideia programática, só pode ter apoiantes, sempre com o senso comum equilibrador, não sendo admissÃvel ir ao extremo de eliminar o incentivo por fazer mais e melhor, recebendo a correspondente recompensa. Aliás, as sociedades em aperfeiçoamento realizam-no na dialéctica entre o estÃmulo aos melhores, mais criativos, com maior iniciativa e a protecção aos mais fracos e a ascensão social a todos aberta. Porém, usada como "slogan", uma moda local, serve permanentemente para utilização demagógica, servindo de desculpa para a ineficiência. Vamos estando atafulhados de medidas ditas justas, o que muito agrada ao ouvido, mas que tantas vezes encobre resultados de medÃocres a catastróficos, para malefÃcio de todos, abaixo ou acima na escada social.
Medida economicista: - Este chavão, atirado para impregnar de malevolência a destinatária, não passa de uma espécie de supra-sumo de idiotia demagógica. E o que significa no final? Que um acto destinado a criar poupança é indesejável, porque não se ligam aos meios mas apenas aos fins, ou seja, em vernáculo, se se quer algo, que se lixe o custo, há sempre no final um burro que paga, isto é, o contribuinte. E até se criou uma anestesia para a pobre vÃtima incauta, dizendo que quem paga é o Estado.
E só demos alguns exemplos...
Â
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 6 de Agosto 2010
Â