Sexta, 22 Julho 2011 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor lança o seu olhar falcoeiro sobre os passos titubeantes do jovem governo, repleto de sinais positivos, mas parco de realizações, agindo num denso ambiente de incertezas internacionais e nacionais, com o bom nome e reputação da República pelas ruas da amargura, concluindo que pior que ser governante se calhar só mesmo ser governado).
Agora que Sócrates deu de frosques em busca das novas oportunidades estrangeiras (com o cursilho em filosofia técnica ainda lhe passam a chamar o Ressócrates), nem por isso as desgraças nacionais se desvaneceram, porque cá as novas oportunidades para o cidadão comum ainda estão para lá do horizonte, excepto a de pagar impostos extraordinários que andam a dar mau nome aos auspÃcios de Natal.
O caminho em frente para a governação não começou de forma auspiciosa com a história, ainda de contornos imprecisos, sobre os dois mil milhões em falta nas contas públicas, a qual terá fundamentado a decisão de impor o dito novo imposto extraordinário. E agora, ficamos com um "esforço colossal" ou "um buraco colossal"? É óbvio que, com tal fundamentação, ambas as asserções são exactas e só atingiram o nÃvel polémico de tÃtulo de comunicação social pelo facto de Passos Coelho ter asseverado que nunca se iria desculpar com base na governação passada.
Já aqui tinha aplaudido a bondade da decisão, menos pelo exercÃcio de espÃrito franciscano e de esforço para ganhar o Céu, mas seguramente porque quanto mais se acenam com coisas negras mais se tinge o espÃrito construtivo que é essencial nas empreitadas bem sucedidas, e até em razão inversa da magnitude e complexidade do esforço. "Sim, nós podemos" só tem a força mobilizadora que galvaniza e arrasta as pessoas se não tiver acoplados adversativos do género "apesar de…", os quais acenam com a insÃdia da dúvida e o peso do contratempo. Quando Durão Barroso viu o PaÃs "de tanga" estava a ver bem, mas a frase infeliz e negativista só conseguiu ser superada pela irresponsável de "há mais vida para além do orçamento", ainda para mais vinda do Presidente da República, minimizando ou desvalorizando as tarefas essenciais do PaÃs que deu inÃcio à falha generalizada do Pacto de Estabilidade. E proclamar com grande alarido um défice virtual excessivo de 6,8%, como fez Sócrates, não ajudou seguramente as hostes a cerrarem fileiras antes incutiu a desconfiança dos cidadãos na governação geral do paÃs e desorientação para o futuro. Ganhou indulgências absolutórias temporárias mas não espÃritos ao alto.
É claro que ocultação não lembraria ao diabo, nem num caso nem noutro, mas nem grande figuração nas palavras ou histrionismo nos actos ajudam a resolver as questões, definindo de inÃcio a necessária exactidão dos problemas em presença. Inventariar os desafios, propor soluções e descrever a metodologia, num discurso de confiança é o signo dos ganhadores. Essa foi a atitude do ministro das Finanças que, em tom tranquilizadoramente fáctico, referiu a "tarefa colossal" mas igualmente a segurança no sucesso, com o a excelente tirada de que "falhar não é uma opção". Em "expressão corporal" o novo Governo vai muito bem e erra quem minimiza como trivialidades as viagens em executiva a menos e os cortes a mais nos automóveis de serviço. Como nos duelos do antigamente, as flâmulas e os estandartes não entram em combate mas revelam o propósito e acicatam os ânimos. Uma sondagem de quarta feira, revelava uma notável subida de 4% das intenções de voto dos portugueses no PSD, e o que é facto é que até ao momento apenas se viu atitude tranquila nos pequenos gestos e, com excepção do colossal "colossal", comedimento e teor factual nas mensagens. A eficácia da componente psicológica é evidente e, no meio de tanta perturbação e instabilidade na Europa, aqui reflectida diariamente, não é só o estado de graça nem a letargia do PS que as explica.
Vêm no mesmo sentido da valorização dos pequenos sinais as instruções contra o fato e gravata no Ministério da Agricultura, mas aqui o arguto autor discorda. Que se ponham os homens mais ligeiros e com menos roupa, em pleno estio, parece simples bom senso, mas em que situação ficam as mulheres? Descriminadamente enroupadas ou igualitariamente despidas na roupagem ? Convém lembrar que está cientificamente comprovado o nexo de causalidade entre a frescura da vestimenta feminina e a temperatura corporal masculina. Realmente, faz muita falta o Ministério da Ciência.
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* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
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Publicado no Jornal de Negócios dia 22 de Julho de 2011
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