Domingo, 1 de Agosto, 2010

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Dilema do Califa Omar

Fernando-Braga-de-Matos

Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor, perante a incerteza do futuro, a obscuridade do presente, a confusão do passado, a devassa dos credores e a omnipresença socrática (“ Big Brother is watching you !”), proclama aos ansiosos leitores: Tende calma, porque realmente não há dilema, mas um simples unilema - Sócrates fica, e Deus Nosso Senhor nos valha. Nada a fazer, logo relax e vamos à massagem tailandesa).

Como os mais cultos saberão, o dilema do Califa Omar, tal como enunciado por Aristóteles em pleno Parténon, reza o seguinte: “Nem tanto à terra, nem tanto omar”. Este problema foi resolvido, em Los Alamos, por von Neumann, em 1944 : “Então não se faz nada”.

È isso mesmo, compatriotas, perante a severa crise que nos apavora , qual Adamastor com nariz de Sócrates ou o contrário, nós , o povo, e os nossos representantes devemos andar devagarinho sem fazer ondas , a ver se o barco aguenta mais uns meses. Umas bocas, umas denúncias, uns insultos, uns piretes são admissíveis e até estimulados, ao menos para descarregar a bilis. Quanto ao resto, só é de mexer na Constituição e proibir durante dois anos falar de segredo de justiça, direitos dos arguidos e de separação de poderes , que é a banha de cobra para nunca se saber de nada, pondo milhares de juristas a opinar, em modo gongórico e obscuro, e tirando protagonismo aos próprios comentadores de bola, o que é de facto insuportável. Como vamos indo, o Direito - no qual medra um ridículo conjunto de leis feitas à pressa , destinadas a fazer puzzles e não criar soluções - substitui a realidade, incarna uma alterna vida própria e cria um “Bodysnatcher” stevensoniano.

Isto está mesmo sério e basta pensar que Portugal representa apenas 1,4% do PIB da União Europeia para se ver como facilmente seremos chutados , se for caso disso, e nem dá para ir à sala de chuto para esquecer as mágoas , permanecendo em estado de negação , porque até os bens de primeira necessidade, nesse cenário, vão faltar. Se eu não fosse um perfeito inconsciente, andava aterrorizado com o facto de deparar vezes demais com o nome do país(1), na imprensa internacional, principalmente económica, pelas más razões. Quando era a Rússia, os tigres asiáticos, o Lehman s, o Dubai, a gente sentia a magnitude do problema por relação ao peso dos protagonistas. Agora um país sem qualquer importância financeira (esqucendo um pequeno revés no euro)ver-se no centro de holofotes, alto lá que agora passaram-se as marcas.

Temos agora o orçamento 2010 e o PEC e, ou o patronato de S. Bento cai na real, ou vamos ver no aeroporto os funcionários do FMI, com ar frio e exigente e a pasta cheia de cutelos(2).

O orçamento 2010, que Campos e Cunha classificou como coisa de aluno de 10, teve a complacência da oposição, mas ainda assim conseguiu provocar tal celeuma que deixou tudo boquiaberto, ainda mais quando Teixeira dos Santos encenou o número “segurem-me, se não demito-me”, com chamada das televisões o meios de comunicação para as 20 TMG do dia qualquer coisa, hora fatídica onde se anunciam eventos de carácter único. Eu ainda estive para perguntar aos organizadores da treta se restituíam o dinheiro dos bilhetes…

Foi a falta de ambição de documento pífio que conduziu ao cenário seguinte, com avisos de vários lados, subidas de “spreads” e comentários assassinos à Almunia. Esta gente que, segundo dizem, nos governa, parece que anda numa campanha internacional de charme e promoção, aparentemente tendo aprendido, para agora, que a atitude macho-dinâmico da voz grossa, quando dá para o torto, acaba com um olho negro, no mínimo, e 700 milhões de euros em juros acrescidos, na hipótese pior(3).

Mas vem o orçamento na especialidade e o PEC e agora nem os tambores rufam tal o suspense no circo nacional. “It’ s now or never”, como dizia o imortal Elvis Presley, e a gente acende os isqueros no concerto a ver se temos “grand final” ou se a tenda cai e rompe um temporal.

Na vida tudo é possível, até ver um Sócrates firme, mas sem ar de cocaína, e um Teixeira dos Santos a lembrar-se dos tempos em que era um mestre de finanças públicas, um técnico e não um politiqueiro.

 

(1)Esta semana, vá lá, estivemos na ribalta internacional, por boas razões, com Constâncio vice-presidente do BCE ( podendo regressar ao seu nível de grande competência com purga política) e Vale Almeida, embaixador da EU em Washinton! Well done! Até o FCPORTO derrotou o Arsenal com dois golos de grande beleza e craveira técnica.

(2)Na última situação, em 1983, surgiu uma arménia de fato-saia executivo, tacão altíssimo a pô-la ainda mais alta, Teresa Tiernamen, julgo. Só não trazia chicote, porque de resto, como “mistress” , fez levantar muita celeuma, creio eu, que tenho uma mente perversa.

(3)O anémico crescimento de 0,7% do PIB , anunciado para 2010, já só serve para pagar os ditos juros a mais.

 

 

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

Publicado no Jornal de Negócios dia 19 de Fevereiro de 2010

 

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