Sexta, 05 Março 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, lembrando-se do seu percurso messiânico pela vida, mais uma vez indica aos sofredores portugueses que a gratificação instantânea não é o caminho para a felicidade, e que poupar, investir em acções e fazer multiplicar resultados ajuda muito agora, e mais ajudará no futuro quando as reformas minguarem, para não falar de outras prestações sociais).
“Os derivados são para quem odeie ficar rico lentamente e prefira ficar pobre rapidamente”
Peter Lynch, emérito director do Magellan, o Fundo Mútuo mais rentável de sempre.
Nos jornais económicos, impressos ou online, bem como nos sites de idêntica natureza, vai uma campanha desenfreada a fim de atrair clientela para plataformas de negociação sofisticadas, rápidas e de baixo custo. Até aqui tudo bem, é a concorrência a funcionar e os melhores até obrigarão os outros a regenerarem-se ou a irem vender cautelas de lotaria online ou mesmo castanha assada. O sobressalto surge-me quando se torna aparente que o aceno é para produtos derivados, como os CFD (1) que nos tempos recentes fazem sombra, na zona “hard core”, à pokermania.
Esta minha percepção tem ficado mais consolidada ainda quando alguns leitores me inquirem sobre o assunto, em vez de continuarem inebriados no “cut the losses, let the profits run” – o equivalente bolsista da celestial exclamação “in hoc signo vinces”.
Na especulação financeira, há muito dinheiro para se ganhar, mas grandes retornos só os grandes riscos os justificam . Este jogo é para gente bem preparada e experimentada, no mínimo semi-profissionalizada, dotada para tal actividade e com perfil psicológico a condizer(2). Estes são os predadores que esperam “ carne virgem para Drácula”, não me referindo senão retoricamente à carne de doces donzelas mas sim aos fluxos monetários de protoespeculadores, tão intrépidos como incautos(3).
Não oferece dúvidas que, em média, o investimento em acções é o que proporciona maior retorno. Ainda em Janeiro , o prof. Ibbotson, a maior autoridade mundial na matéria, deixava a informação, no Wall Street Journal , de que, de 1926 a 2009, a aplicação em acções oferecera um retorno de 9,4% ao ano, mesmo passando por todos os crashes – referindo-se aos EUA, claro. Este “satisfatório retorno”, para usar o understatement de Graham, ainda assim tem por base uma estratégia “ingénua” ( J. Francis “dixit”)de “comprar e guardar” e nenhum modo optimizante, nem sequer algo tão simplista como o uso de uma média móvel de 50 dias para determinar gatilhos de compra e venda .(4).
Constitui-se, portanto, uma carteira de acções e desde já se apresenta uma resposta preventiva: Não é preciso pensar em dinheiro que se veja, pois a empreitada pode começar modestamente com Fundos que aceitam pequenas quantias e pequenos reforços. Um aforro tipo “porquinho”, para ensinar a si mesmo e aos seus filhos.
Como se vê, situamo-nos no longo prazo, o que não quer dizer, de forma alguma, “comprar e guardar”(5). E porquê o longo prazo? Porque permite o chamado “efeito bola de neve”, isto é uma estratégia de capitalização dos rendimentos, o dito “lídimo milagre financeiro”. Toda a gente está familiarizada com o princípio devido à antiga popularidade dos Certificados de Aforro”(6), mas sem ver o rendimento potencial sempre que se aumentam os retornos (4).
Terminamos com uma curiosa forma de avaliar o método, invocando os assim considerados três maiores investidores dos últimos 50 anos: Warren Buffett, George Soros e Peter Lynch. O que obteve maior rendibilidade total foi Buffett, mas não a maior anualizada, porque aqui a ordem inicia-se com Lynch, seguido de Soros.
Mas a “bola de neve” funcionou mais para Buffett, a seguir para Soros e, finalmente, para Lynch, o que afinal corresponde a 50, 40 e 30 anos de investimento, mais ou menos. O “lídimo milagre financeiro” bate o “toque de Midas”.
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 5 de Março de 2010
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