Terça-Feira, 22 de Maio, 2012
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Estado social e colapso moral

Fernando-Braga-de-Matos

Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor propõe que, como tudo na vida e na sociedade, há que manter o bom senso e o equilíbrio, e os excessos em que caiu o "welfare state" e a cultura da permissividade apresentaram apenas uma factura nas incríveis desordens no Reino Unido, porque a doença social é mais funda, a necessitar de expurgação. E também a temos em Portugal, como em boa parte das democracias ocidentais).

Nem de propósito, encontrava-me a reler passagens do brilhante e provocatório "Black Swan", de Nassim Taleb quando os motins britânicos estalaram e se espraiaram com a naturalidade de fogo a incendiar gasolina. A curiosidade é que aparentemente não havia combustível ou ignição mas tudo ardeu. Aqui entra Taleb e a sua sugestão de que a maioria dos grandes acontecimentos que mudam a vida e às vezes até a história surgem imprevistamente do nada, destituídos também de previsibilidade apriorística, mas posteriormente sujeitos a inúmeras explicações de "retroprevisão". Agora pode-se dizer que estes jovens rebeldes sem causa, a não ser a dos Blackberry, Samsungs ou Lacoste, estão destituídos da fibra moral e cultura de responsabilidade, a quais constituem as fundações das sociedades harmoniosas, mas não nasceram assim, sociopatas candidatos a reformatório e serviço cívico, ou até, pura e simplesmente, grades. Algo se passou.

O Reino Unido oferece talvez o primeiro exemplo de sociedade socialista democrática com a vitória de Atlee em 1945, os sindicatos no poder no Partido Trabalhista, a continuação do dirigismo da economia de guerra, nacionalizações generalizadas e constrangimento nos mercados. De certa forma, para a Europa Ocidental do pós-guerra, é a opção pelo caminho oposto do trilhado pela República Federal Alemã, de liberalismo económico na concertação entre sindicatos e patronato. Sem surpresa, o país começou a destacar-se pelas taxas de crescimento inferiores aos parceiros europeus, sendo até ultrapassado pela Itália. A falta de incentivos ao sucesso individual e a subsidiação generalizada foi ilustrada brilhantemente pela tira humorística diária de Smythte, o Andy Capp (em Portugal, o Zé do Boné), desempregado permanente a viver de subsídios ("dole"), sempre no pub e no bilhar. Para não nos deixarmos arroubar pelo entusiasmo, passamos pela Thatcher sem nos determos, retomando a saga socialista do culto do facilitismo e dos direitos sem responsabilidades que Gordon Brown patrocinou. É esta a Grâ-Bretanha que deixou em combustão lenta os díscolos nihilistas que vimos espalhando o fogo, a assuada e a pilhagem, frustradamente exigentes de tudo e sentindo que é legítimo fazer seu o que aparecer disponível, porque sim, porque é direito inalienável.

Numa reportagem da Sky News, que eu acompanhei assiduamente por ter a cobertura mais contínua, dizia um encarapuçado ao jornalista que o inquiria sobre as suas razões: "estou farto de andar sem dinheiro". Esse jovem, vestindo roupa de marca e exibindo um telemóvel de última geração, estava custando aos contribuintes, isto é, aos trabalhadores, o subsídio de desemprego, uma educação estimada em 80000 libras, todos os cuidados de saúde de que necessitasse e casa de renda social. Escapava-lhe, porém, que, sempre e em toda a parte, ganhar a vida no dia a dia é a forma como as pessoas subsistem e se o jogo da fortuna não é o mais favorável não há um direito subsidiário à apropriação, ou seja, ao roubo puro e simples.

Em sociedades assim delineadas e delineando-se, o Estado é a grande mãe que tudo fornece e a quem tudo se exige, e as coisas chegaram a este ponto porque os eleitores apreciaram o sistema das dádivas que ideólogos efabularam, e os políticos não estão no jogo dos grandes princípios mas das vitória eleitorais, que conseguem com promessas cumulativa de novas dádivas. E não só à esquerda…

E sabem o que os ingleses pensam sobre os motins, segundo estudos de opinião citados em artigo do Wall Street Journal? Que se devem à falta de princípios e de regras de moral, bem como a quebras na autoridade das famílias e das escolas, com uma ínfima minoria (8%) a atribuí-los ao desemprego. Realmente o senso comum não foi de férias, mesmo em sociedades laxistas e não é de Esquerda nem de Direita. Eis, aliás, a opinião de Shaun Bailey, no "Guardian",esse prestigiado órgão socialista:

"O maior problema que o nosso país enfrentou na duas últimas décadas é o de toda a gente pensar que o Estado tem que fazer tudo. A responsabilidade pessoal e a responsabilidade das comunidades foram substituídas pela responsabilidade estadual. Se alguma coisa os motins demonstraram foi a de que esta aproximação não funciona".

 

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar


Publicado no Jornal de Negócios dia 19 de Agosto de 2011

 

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