Terça-Feira, 22 de Maio, 2012
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Governo de salvação

Fernando-Braga-de-Matos

Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor recorda a efeméride do segundo mês de governo, agora pelos idos de Agosto, a qual, em circunstâncias normais, seria completamente anódina, mas impõe agora observação ansiosa, pela boa razão de que, com o país de rastos e falido, nada pode falhar, numa governação milimétrica e ao segundo, num ambiente de regeneração absolutamente necessária).

Este governo é o 19º constitucional (acho eu, eles são tantos…) e fosse qual fosse a sua direcção e composição teria que ser de salvação nacional. Quando o País esteve a um mês de cessar pagamentos, o que só não ocorreu graças à caritas financeira internacional, a ideia que ocorre é a do filme italiano "Sono andata fino in fondo", no estilo comédia negra semelhante à política portuguesa.

Com mais de uma década de socialismo, de perda de competitividade, de incentivo ao desperdício, de penalização ao empreendedorismo, de recompensa ao desleixo, irresponsabilidade e compadrio, de eduquês nas escolas, de orgias de betão, de caquético e balofo estatismo, de mentira e ocultação, tudo a culminar no surrealismo e irrealidade de Sócrates, o país tinha mesmo que bater com o casco no fundo, num ranking mundial de penúltimo em crescimento económico. E, possivelmente, para uma mudança drástica de vida e regeneração da alma, só mesmo um tal colapso poderia levar à redenção, assim como o toxicodependente que se reabilita mas só depois de sentir o travo da lama. Se calhar, a clínica de reabilitação é mesmo a troika internacional e o "memorandum" de entendimento os doze passos.

Quando votei em Passos Coelho, fi-lo apenas para contribuir, com muita modéstia mas grande impetuosidade, no pontapé a Sócrates, afinal mais pela negativa do que na convicção que se iria nele desencantar o homem para a travessia do deserto. Aliás, até me parecia e parece uma missão quase impossível conduzir a bom porto um governo de salvação nacional em correspondente magnitude à da destruição nacional. Releva aqui bem a metáfora do afundamento, visto que não se trata ainda de por o barco em movimento mas iça-lo para a superfície e pô-lo a flutuar, e esta tarefa é mesmo colossal; mas a outra, a do movimento, também é gigantesca. Equilibrar o orçamento, pagar a dívida, por a economia a competir e a crescer, enfrentar o que aí vem com as parcerias público-privadas… Deus do Céu! Mas tenhamos fé, na vida quase tudo é possível, excepto ressuscitar, e, como voltei ao Taleb, os cisnes negros existem.

Ao fim e ao cabo, o primeiro-ministro surpreende positivamente pela simplicidade, franqueza, espírito de missão, capacidade de seduzir e atrair talento. A equipa ministerial aparece constituída por gente que é nata, aparentemente imbuída da alma do serviço público, preparada para sair a perder no deve e haver dos benefícios dos cargos que assumiu, e onde se vê o espírito de desafio e a força anímica imprescindíveis para enfrentar e (quem sabe?) estilhaçar o "colosso". "Falhar não é opção" pode ser bem mais que um momento de eloquência motivacional do ministro Gaspar, antes um desígnio para um país onde já houve como inspiração o "talent de bien faire" dos altos infantes (esta saiu-me bem). Por outro lado, as reformas liberais do "memorandum", que coincidem ideologicamente com o Programa do Governo, são absolutamente imprescindíveis para transformar em social-democracia este socialismo pantanoso e imobilista dum país aculturadamente esquerdês, possivelmente aproximando o sistema daquele que vemos a funcionar para os lados do norte da Europa com assinalável sucesso.

Mas será que, externamente, esta visão , que é mais uma esperança que um diagnóstico, também é partilhada ( este vertente é crucial para o sucesso)? As declarações da troika foram positivas mas não encomiásticas, aproximando-se até do que foi dito quanto à Grécia e Irlanda para idêntico período. Ora quanto aos mercados da dívida e aos seguros de crédito - o verdadeiro júri de exame - não se nota apaziguamento e isso significa que ainda estamos longe do Bojador, quanto mais da Boa Esperança.

A sabedoria política sustenta que todas as reformas penosas devem ser executadas no princípio dos mandatos governativos e depois transformadas em benesses para o ciclo eleitoral seguinte. Por mim, espero que o primeiro ministro prefira ficar na História do que em S. Bento daqui a quatro anos.

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar


Publicado no Jornal de Negócios dia 26 de Agosto de 2011

 

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