Sexta, 25 Fevereiro 2011 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor comenta eventos recentes, nenhum particularmente importante mas contendo todos uma lição intrÃnseca superior - à s vezes tão superior que nem se percebe qual, mas, como dizia Alice e eu repito permanentemente, "todas as coisas têm uma moral, o que é preciso é encontrá-la").
A moção para um dia destes
O Blok bem tenta ser um Messi polÃtico, mas são tantas as fintas que passa o tempo a tropeçar em si próprio. Aquela espantosa moção de censura a prazo de um mês, tipo letra para protesto, logo a seguir ao fiasco Alegre, já se sabia não vir a ser outra coisa senão um "Aliens contra Predator", em comédia parlamentar, isto é, o insuportável Louçã contra o execrável Sócrates, em que este ganha sempre. O dito Blok, versão local das fusões vermelho-verdes europeias, parece ter aderido ao princÃpio de marketing que assevera que não há boa ou má publicidade, o que é preciso é que haja alguma. Apesar da boa dose de gente com muita qualidade substantiva, o Blok não passa afinal de um Caras-NotÃcias disfarçado de partido que apenas oferece uma alternativa ao voto em branco, nem sequer ao voto nulo inutilizado por palavrões e outros étimos de interesse polÃtico equivalente. Parece que nestes dias Louçã vai andar a fazer pregão. Bom proveito.
O atraso de vida
Todos se recordam inevitavelmente do Congresso das Exportações, realizado em Santa Maria da Feira para 1.500 intervenientes, evento de alta mediatização visto que o output exportador nacional subiu 15% em 2010, sendo, portanto, coisa para dar propaganda de concorrer com o túnel do Marão que, esse, tem peregrinação anual assegurada, tipo 13 de Maio. Assim foi, com clangor inexcedÃvel e massacre para os consumidores compulsivos de informação, como eu próprio. Não me ocorre, nem por sombras, estar a diminuir a importância do evento e a vital necessidade de promover insistentemente o sector exportador, mas fico surpreso com a indiferença relativa com que tem sido tratada a balança comercial de há bons anos para cá, ao ponto de nem ter aparecido no programa eleitoral do PS, ainda menos como prioridade absoluta. Há sempre a mediatizada diplomacia económica e uns PIN, mas isso surge tão insistentemente ligado à propaganda do Governo que dificilmente se sabe o que de substantivo acontece, de preferência por método quantificado e não por anúncio.
Voltando ao Congresso, fiquei a saber numa nota residual de um periódico que tudo tinha começado hora e meia mais tarde, por atraso do PM e este facto é o que eu pretendo salientar.
O PaÃs tem sabidamente o mal da desorganização, sendo a falta de pontualidade um vÃrus insuportável da vida nacional. Dizia um guru da gestão, e nem é preciso possuir tão alta qualidade para o afirmar, que a pontualidade é a pedra de toque das estruturas de pessoas em interacção dinâmica. Agora pense-se num paÃs inteiro, onde apenas há horas marcadas tendenciais e o primeiro governante ilustra tal maleita por si próprio, de tal forma que me convenço que em Portugal o que conta não é chegar a horas, antes ter uma desculpa para chegar atrasado. E nisto até há outra vertente a considerar, para além da eficiência, essa de valor moral, que é a falta de respeito pelos outros. "Sibi imputat".
A execução orçamental
O tema da semana foi lançado no sábado, com o aparecimento de números sobre a dita execução, aparentemente dando razões para felicitar o governo e, principalmente, nós próprios, os cidadãos. Todavia, um céptico empedernido como eu próprio, e muito mais com esta gente que nos governa, começa por estranhar a injecção às pinguinhas de novidades. Tivemos depois as declarações eufóricas de Sócrates, logo confrontadas com banho gelado factual: os números da receita dependem de situações excepcionais, como a cobrança de impostos por dividendos antecipados e as vendas de automóveis em fuga de IVA, e a despesa ainda subiu em relação ao mês homólogo de 2010.
Haveremos de saber tudo a crivo mais fino, mas já todos temos uma informação que comporta todo o conhecimento e expectativas dos agentes económicos: Os juros da dÃvida pública soberana, mesmo os do mercado primário, e apesar do oxigénio do BCE, continuam muito elevados, bem acima do número crÃtico de 7%, demonstrando desconfiança na execução. Ora, citando-me a mim próprio, em livro de 1993, "os mercados têm sempre razão, mesmo quando não têm". Acreditem.
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* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 25 de Fevereiro 2011
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