Sexta, 28 Maio 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, hoje pouco propenso ao sarcasmo, divaga sobre "os maus novos tempos", assim exibindo a sua forte costela prazenteira e optimista que o inibe de puxar uns palavrões para o terreiro da discussão, e presta a sua vénia à Lei, à  emanação da Justiça, e a um assumo de "imperativo moral" que nobilita os homens e as sociedades que eles criam, enquanto reina a a regra da Esperteza).
Dizia John Quincy Adams que a grande aspiração das sociedades é ter " um governo de leis e não um governo de homens", e a frase é tão potente que se encontra inscrita em inúmeros tribunais americanos(1). Quanto a nós, estamos "governados", tanto por um lado como por outro, pois, entregues em geral à direcção de homens pequeninos na visão, nos princÃpios e na eficácia, tão pouco possuÃmos um edifÃcio legal majestoso e implacável que permitisse, sem atribulações de maior, aguentar uma conjuntural governança nefasta. As leis são muitas, atabalhoadas,herméticas, contraditórias e permissivas, produtos corruptos de outra tal gente que tal. E se nem essas são aplicadas porque a máquina soberana da Justiça não passa de um motor entregue à ferrugem, tal qual uma motorizada apreendida à guarda de um tribunal de execução, ou se o são de forma desigual conforme os destinatários, então bem podemos passar sem comemorações do centenário da República que sejam para além de um bolo de 1 vela.A Lei é a massa das sociedades harmónicas, o toque de magia que torna o forte igual ao fraco, protege e dá vigor à s instituições estruturais e proporciona a confiança para que os indivÃduos possam viver e prosperar com suporte no trabalho e no mérito.
A Lei justa e a sua rigorosa aplicação ultrapassam bem a percepção de um bom esqueleto onde se ajuste todo o corpo social porquanto acaba por ser interiorizada pelos cidadãos como paradigmas de comportamente social a assimilar e executar,  não só coagido mas moralmente suportado. A percepção empÃrica que todos temos vai no sentido de ver o respeito permanente das normas imperativas coincidir, nos sÃtios onde a "formalidade"é rigorosamente cumprida, com a harmonia dos comportamentos e a reprovação colectiva dos que prevaricam . Os conceitos Ãnsitos na Lei firmemente executada acabam por se confundir com os imperativos sociais e éticos que o grupo assume.O suporte empÃrico que invoquei está evidenciado em paÃses como a Finlândia, mas também, nos outros lados do Mundo, como Singapura e o Canadá. Tudo se ajusta: Leis justas e vivas, sentido de imperatividade e de correspondente punição firme, baixa criminalidade, diminuta corrupção, eficiência económica, harmonia social e alto sentido cÃvico(2).
No lado subjectivo, o dos comportamentos individuais definidos pelo sujeito, o conformismo com o "imperativo moral" não está seguramente em moda nestes "maus novos tempos"(3), Mas seguramente um forte conformação com comportamentos que desejarÃamos que todos tivessem é um princÃpio valorativo e de mérito pragmático completamente indubitável.É bom porque é bem mas também porque resulta melhor. Pense na atitude a tomar se conseguisse passar numa entrada de metropolitano sem pagar bilhete e sem detecção. O debate abstracto é entre a ideia " o que aconteceria se todos fizessem como eu?"(todos perderiam porque, em última análise, um dia deixaria de haver o transporte público - todos sairiam a perder) e a ideia contrapontual da aversão a pagar " o imposto do trouxa" (aceitar o sacrifÃcio que todos os outros evitariam estando na mesma situação - o "burro" que paga)(4).
Os meus estimados leitores concordarão que todos viverÃamos melhor em Portugal com  melhores leis (estas aplicadas no tempo e no modo exactos) e também outra cultura de virtude cÃvica, numa sociedade que recompensa e vê com admiração a figura que um outro Bordalo um dia eternizará: O Chico Esperto.
A nossa receita: Outros dirigentes, sem dúvida, mas também outros comportamentos para todos, porque de povo não podemos mudar.
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(1) No frontespÃcio, não nos urinóis.
(2) Um profundo estudo tendo por objecto esta ideia da assunção pelos cidadãos de que o imperativo legal é social e moralmente suportado ocorreu nos Estados Unidos, após a decisão no famoso caso Roe versus Wade, em 1973, que veio descriminalizar o aborto nos Estados Unidos. O estudo revelava que o aumento de práticas abortivas
nos Estados onde se deu a liberalização era bem superior ao espectável graças à legalização, sugerindo, como se disse, que o imperativo da lei era interiorizado tanbém como um ditame moral e social.
(3) Porém, ninguém me ouvirá clamar pelos "bons velhos tempos", em que em verdade era tudo pior, excepto eu que era mais novo.
(4)Esta interessante congeminação até acaba por ir parar à minha mui estimada Teoria de Jogos ( somo negativa, n participantes).
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* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 28 de Maio 2010
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