Sexta, 14 Maio 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde se espelha a estupefacção pelo “pacote” da União Europeia para salvação do euro, tardio mas tonitruante, e, mais ainda, pela ordem pastorícia imposta aos dirigentes europeus indisciplinados, nomeadamente o nosso “one and only” José Sócrates , que entrou com ar “Boss for Men” e saiu barbeado – para nosso alívio e vantagem ).
Já se sabia, depois do anúncio da passada sexta-feira do presidente Sarkozy, que as medidas de apoio ao euro e, por arrasto, às economias mais débeis, iriam ser do tipo “shock and awe” da guerra do Iraque, até porque o marido da Carla Bruni parece que não sabe dançar. Setecentos mil milhões é a chamada pipa de massa (a mim até dava para pagar as dívidas mais prementes ), acrescida da disponibilidade do BCE, até ao limite admitido pelo sistema , e até do FED, quanto a “swaps” de divisas. E nem falo de Lula da Silva, prestando-se para avançar uns trocos, ali à porta da igreja. Em suma: os títulos da dívida portuguesa, grega, espanhola são para comprar não para vender “short” , e quem já mercou dívida soberana, em euros, à taxa de 9%, agora sem risco, está na zona do orgasmo financeiro.
Bem sei que é muito bonito dizer e difícil de fazer, principalmente com eleitores em ataque de nervos por salvar chulos gregos e o Zézé Camarinha, entre outros. Mas, bolas, estes dirigentes políticos podem não perceber nada de economia e finanças – nem precisam, o necessário é saber ouvir e bem decidir - mas têm conselheiros topo de gama, nos governos e no BCE, que bem conhecem os fenómenos do contágio, já visto, sabido e estudado na crise do Sudoeste Asiático em 1997, iniciada com o “baht” tailandês, seguindo em pandemia, e quase provocando um colapso financeiro geral quando chegou à Coreia, seis países mais tarde. Esta procrastinação é quase tão arrepiante como a teimosia inconsciente de certos PIIGS.
Mas a grande verdade é que para os países doentes este bálsamo é apenas isso, um paliativo estabilizador, fornecendo um compasso de espera para a traumática terapêutica de urgência que se impõe. Agora é que são elas, mas que venham, duras e rápidas, por muito que isto possa parecer um esquema desviante para o lado Sado-Masoch.
Entretanto, a decisão tomada em Bruxelas é pelo menos tão importante no outro aspecto da adesão imposta aos prevaricadores. Pelo lado português, espero que ninguém se tenha esquecido da arrogância balofa de Sócrates trejurando que as grandes obras públicas eram para prosseguir, mesmo perante o clamor negativo já quase unânime de todas as pessoas com a autoridade do conhecimento. A coisa tornou-se tão surrealista que pôs na oposição todos os ex-ministros das finanças vivos da 3ª República, incluindo os três que se não juntaram no pedido de audiência ao Presidente da República. Até o exemplarmente discreto Constâncio piou.
Para Sócrates, o caminho para Bruxelas foi o caminho de Damasco e a palavra celestial substituída por uns gritos da Merkl e uma chave de braço aplicada pelos seguranças do bom do Sarkozy. Como dizia um filósofo do meu círculo da amizades, “ Não há melhor persuasão que um bom enxurro de porrada”, principalmente com gente de tal calibre, que assim entendem muito melhor a argumentação. Lá ficamos com a adjudicação do troço do TGV Poceirão- (pode ser que) Caia, mas para um país que usufrui de tão belas auto-estradas e estádios isso nem tem significado, até é decorativo.
Todos têm a noção de que nada disto ainda passou de latim, os actos não são palavras. A oposição de rua vai ser muito para além de um muro de decibéis e a determinação governamental é tudo menos segura. Realmente, o ministro das Finanças , mesmo aparentemente convencido, não possui manifestamente músculo no Governo e o núcleo duro próximo de Sócrates inclui demasiados “yes-men” de perfil político. Mas , por outro lado, não só o Presidente da República confessadamente vai ser um agente positivo na dita solidariedade institucional como aparentemente se desenha um suporte do PSD, não apenas uma anuência. Também, pelo lado da União Europeia, o tempo da bonomia já deve ter caducado e não tenho dúvidas que vai vingar o grande principio Reagan: “ Confia, mas verifica”.
E depois, caros leitores, não estamos em tempo de Fátima, abençoados pelo Papa, não é altura de ter Fé? Não foi Sócrates que disse de si mesmo que ainda está por nascer quem tenha feito mais pelo défice que ele próprio? Pode ser este o terceiro segredo, quem sabe?
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 14 de Maio 2010
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