Segunda, 24 Maio 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, adepto da teoria do famoso livro de Caleb, propõe que a anómala crise do euro e a erupção de graves desequilíbrios em países intervenientes , catalizados pela Grande Recessão, que desencadearam graves medidas intereuropeias a fim de estabilizar e combater a situação das finanças públicas e dos mercados, abriram a oportunidade e a vontade para aprofundar o projecto europeu, a necessitar de um choque traumático para se estruturar e evoluir ).
Pela parte que me toca, gosto de fazer parte de uma associação de países que se confunde com todos os da velha e torturada Europa, procurando, em paz e liberdade, a felicidade pessoal e colectiva. A União Europeia ainda se encontra na adolescência a necessitar de muito tempo e evolução, mas como se trata de um projecto indubitavelmente benigno e benfazejo , para que possa progredir até é aceitável que os alemães por uns tempos aponham uns cartazes nas praias gregas, espanholas e portuguesas a dizer “Arbeit macht frei”- para defender a moeda única, esse notável avanço do desígnio colectivo. É que a situação é mesmo séria e, no seu mais nefasto desenvolvimento hipotético, representa não um regresso a 1999 antes a Fevereiro de 1992, mas agora sem a força da tendência ascensional e o poder do momentum.
Mas afinal como se chegou a isto? Bem, porque ninguém ligou peva ao Pacto de Estabilidade e Crescimento e alguns até fizeram dele gato-sapato. Recordando, quando Guterres fugiu para o Egipto deixou o país com procedimentos sancionatórios por três défices excessivos consecutivos, o que demonstra bem que os portugueses, em devidas circunstâncias, conseguem ser pioneiros. Ferreira Leite lá veio tapar uns buracos com vendas ruinosas de activos, umas desorçamentações e mais um sortido fino de medidas típicas, sob o beneplácito consciente do Presidente da República da época, proclamando “há mais vida para além do orçamento” (realmente havia, mas vegetativa).
Mas isso nem seria dramático, nem mesmo com a Enron/Arthur Anderson dos países soberanos, a Grécia, não fora a Alemanha e a França entrarem em incumprimento em 2004 e, como são os “bullies” do recreio, passarem incólumes e a abrigarem , sob o seu exemplo de delinquência impune, todos os outros. Como a sabedoria popular portuguesa é melhor que o melhor oráculo, podíamos afirmar: “O exemplo vem de cima” e “ou comem todos ou haja moralidade”. Depois, um sistema que determina a sua direcção segundo o benévolo método do máximo denominador comum , com amáveis burocratas atentos, veneradores e obrigados , e instituções fracas e permissivas, não está seguramente em busca de rigor e eficiência. Veio depois a Grande Depressão despoletar todo o caldo explosivo subjacente; não é causa do drama , mas é sem dúvida o determinante catalizador da actual crise. O Cisne Negro.
Entra agora Nassim Taleb .não um terrorista islâmico, antes autor do brilhante “Black Swan”, um best-seller em 2007, onde desenvolve a teoria segunda a qual o grande impacte nas nossas vidas, em grande e pequena escala, advém de eventos casuais, raros, extremos e imprevisíveis (mas não retroactivamente). E,não sendo isso, pode eventualmente configurar o cenário de crise a abrir oportunidade. A Grande Recessão preenche todos estes requisitos e, como afirmamos, não sendo o elemento causal do deflagrar do euro e das crises financeiras , constituiu indubitavelmente o rápido correr do pano e o fim da peça – que bem podia durar mais uns anos e até ser sustida num acesso de atenção dos interessados. Bem se pode ter augurado, como Friedman fez, ainda nos anos 90, prevendo a implosão do euro ao deparar com a primeira depressão intensa, ou Roubini quanto à grande crise do crédito. Essas solitárias vozes não têm significado consequencial e alinham sempre no definido grupo das Cassandras – que, nem por o serem, deixam de ter às vezes carradas de razão. Aqui, como sempre, as previsões boas são as do fim do jogo.
E qual parece ser, afinal, a consequência do voo do cisne negro para a Europa, o possível evento estrutural que pode modificar as nossas vidas enquanto europeus? Evidentemente o reforço da componente financeira e política da União e a tendência para um longínquo federalismo. No entretanto, já despontaram os reforços do poder do BCE, as medidas drásticas para o exercício real do PEC, o sinal para gravíssimas sanções aos infractores ( Merkl até acenou com a perda do poder de voto ) e o manifesto rumo para uma severa verificação do cumprimento dos pactos.
O grande pacote de há duas semanas, mobilizando até o FMI, poderá significa o reacender da Europa internamente forte e coesa e o fim dos trapaceiros e vendedores de ilusões.
PS - Gostei muito de ouvir Sócrates a dissertar em espanhol técnico, com a eloquência e sotaque dum treinador estrangeiro recrutado para a Liga de “nuestros hermanos, em conferência de imprensa a justificar maus resultados.
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 24 de Maio 2010
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