Sexta, 16 Setembro 2011 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, tendo acompanhado o Congresso do PS com entediada atenção - com Sócrates as coisas eram muito mais reverendo Moon, com música do "Gladiador" e mesmo algumas curas confirmadas pelo Vaticano - verifica que já esqueceram tudo e não aprenderam nada).
O congresso do PS foi inevitavelmente sorumbático, mesmo com o entrosamento de um novo lÃder, pois nem Seguro galvaniza as hostes nem o travo amargo da violenta derrota eleitoral está digerido. A mim interessava-me saber se o partido optaria pela via da redenção, uma boa hipótese, pois o novo secretário-geral é uma pessoa rigorosa e mantivera sempre significativa distância em relação ao execrável Sócrates. A minha teoria pessimista é de que o ambiente internacional recessivo e a convulsão grega não vão permitir que o paÃs saia da crise económica, mesmo com as finanças equilibradas, e, sendo Passos Coelho derrotado nas próximas eleições por eleitores exaustos, poderá acontecer um Halloween II, embora sem Michael Myers. Ou não, se acontecer uma transmutação do PS; mas esta, pelo que se viu, não ocorrerá.
O tempo para a autocrÃtica e a catarse é este, logo no inÃcio da travessia do deserto, quando a assunção de erros não custa votos futuros e, pelo contrário, fornece explicações conciliadoras para os votantes que se inclinaram, desta vez, para a Direita. Acima de tudo, qualquer organização que comete ostensivos erros grosseiros, falha objectivos e termina abruptamente em colapso financeiro necessita de reflectir e mudar de métodos, não de arranjar desculpas e muito menos delirantes proclamações de justo rumo. Uma empresa cotada que ensaiasse tal exercÃcio para um plano estratégico subsequente a desastrosas contas de exercÃcio, seguramente cairia para mÃnimos inimagináveis, com os investidores a arrancarem os cabelos. Aqui, esperemos que a má memória dos accionistas, digo, eleitores, não caia em pura amnésia, a aparente situação catatónica dos responsáveis do PS.
A pesada herança deste longo perÃodo de governação e hegemonia socialista é realmente aterradora, tanto no confusionismo e hesitação ideológicos como na governança ou, finalmente, como na organização e gestão da administração e do Estado.
Num recente livro, Santos Silva aponta a Esquerda a que o PS pertence a distinguir-se da restante parentela, entre outras coisas, pela sua adesão à economia de mercado. Mas o que se viu nestes longos anos, foi a desconfiança pelo mecanismo, com estrangulamentos, falta de concorrência e supervisão deficiente, cavalgando e dominando empresas do regime, estas pejadas de controleiros e mordomos. O dinamismo que o sistema implica e desenvolve não o promoveu o PS, deixando-o apático e subserviente, bem ao contrário das economias do Norte da Europa, de quem os socialistas locais podiam, mas não quiseram, receber exemplo. Se a isto acrescentarmos as famosas empresas públicas, temos explicados a "década perdida" e o inacreditável 182º lugar mundial em crescimento económico nos últimos 12 anos.
Na Administração Pública e de cariz equivalente, o mérito e a competência foram substituÃdos pela fidelidade partidária, e os famosos "jobs for the boys" entraram para o anedotário nacional. Não é que o fenómeno seja inédito, mas o PS aà atingiu a excelência, que afinal lhe faltou onde importava.
Até nos domÃnios sociais que fazem parte do DNA socialista, as coisas rumaram para a catástrofe. Como é possÃvel deixar andar desenfreado um SNS, para o qual existe um consenso nacional, com a despesa a crescer 10% ao ano, como aconteceu por demasiado tempo? Não vai estourar, criando astronómicas dÃvidas e expectativas frustradas? Ou promover um sistema de ensino de que resultava queda continuada de conhecimentos dos alunos nas áreas essenciais, conforme detectado em testes internacionais, e perante estatÃsticas locais destinadas a embelezar e desvirtuar factos e a encapotar um facilitismo chocante?
Diz Villaverde Cabral, no último "Expresso", que "…o PS será visto pelos historiadores como o partido do endividamento e do clientelismo de Estado, através da criação de emprego e de serviços públicos sem sustentação económica". E, pelos vistos, se regressar é para prosseguir.
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
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Publicado no Jornal de Negócios dia 16 de Setembro de 2011
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