Sexta, 03 Setembro 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor prossegue a sua apopléctica, ou melhor, apocalÃptica análise sobre o Estado Social da envelhecida e desgovernada Pátria, que lá vai afundando com toda a gente lá dentro - os botes de salvamento, como no Titanic, são para ricos -, bem consciente de que o Povo é que paga, mas o Povo é que vota, e lembra sÃtios onde as coisas se resolveram).
Como vimos anteriormente e todos sabem, a reforma profunda do Estado Social que temos é imperativa pela boa razão de que não existe nem se cria riqueza para o sustentar, e os longos anos em que isso acontece demonstram uma situação completamente bloqueada que só produz défice e mais dÃvida. Vimos, também, como o sistema actual desincentiva o aforro, em queda de 50% desde 1995 (coincidência ou causalidade com a polÃtica do PS e a "década perdida"?). O cÃrculo vicioso do aumento descontrolado de despesa, acoplado à diminuição de riqueza criada, incorpora-se no "status quo" que se desejaria, pelo contrário, virtuoso.
Obviamente, o mal não é um exclusivo português (aqui acontece um exacerbamento) e boas soluções procuram-se em todo o lado. O essencial é encontrá-las e aplicá-las com espÃrito pragmático, adoptando o que produz efeito, e não o que é polÃtico e ideologicamente correcto. Não sendo especialista, não sei como se devem alterar as coisas, sei, sim, o que não corre bem, em diagnóstico totalmente evidente. Sei também observar experiências alheias e hoje lembro a de Piñera, no Chile, em 1980, muito estudada e parcialmente imitada em toda a parte, mas sub-repticiamente, ou não fosse uma coisa vinda dos "Chicago boys" (a proveniência de Piñera, porém, era Harvard). O método implantado na generalidade era muito simples, criando um sistema facultativamente duplo, de um lado apoiado no sistema antigo ainda vigente, o estadual, e, de outro, no novo, suportado na ideia de investimentos próprios em fundos e "contas pessoais de reforma", a partir de 10% dos salários, sendo a opção totalmente livre. No final de 2006, 7,7 milhões de chilenos tinham a sua conta pessoal e 2,7 o seu próprio seguro de saúde, enquanto o défice orçamental se tornara, em média, irrelevante e a taxa de aforro passara 30% do PIB, uma das maiores do mundo. Entretanto, este fluxo notável de fundos a entrar na economia nacional permitiu taxas médias de crescimento de 3,2%, enquanto a dos 15 anos anteriores havia sido de 0,15%. Há ainda a mencionar outro efeito indirecto, incidindo na taxa de pobreza, que passou para 15%, enquanto que no resto do continente se situava nos 40%.
Em Portugal, não é possÃvel a mesma coisa, até porque o Governo e o partido do poder, enquanto estabelecem algumas medidas avulsas de reforma, usam despudoradamente o tema serÃssimo da reforma para fins eleitoralistas. Mas não é só isso, obviamente, dada a força da esquerda em sindicalismo radical e em partidos extremistas que agregam quase 20% do eleitorado. Provavelmente, as reestruturações imperativas terão que ser impostas, mas do exterior, quando a Europa, o FMI e a sr.ª Merkl e a GNR aparecerem nas praias nacionais em lanchas de desembarque.
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* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 3 de Setembro 2010
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