Domingo, 1 de Agosto, 2010

Perfis Sociais

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Pagadores de promessas e vendedores de ilusões

Fernando-Braga-de-Matos

Por Fernando Braga de Matos*

(Onde o autor após uma vista de olhos ao Pacto de Estabilidade e Crescimento, sobre o qual se mantinha em vigília e alta ansiedade, conclui, através de fiáveis indicadores, que o dito produto parece ok na zona “ estabilidade” e a inevitável droga (aliás assumida)  na secção “crescimento”, merecendo claramente um necessário e patriótico consenso alargado dos partidos com os pés assentes  na terra).

Finalmente, a dupla Sócrates- TSantos caiu na real (1) e até imagino uma reunião no Ministério da Verdade e das Finanças em que o segundo poderá ter dito ao primeiro: “Aquela banha da cobra  do orçamento e as fitas demissionárias não pegaram, isto agora  já não é pechisbeque para o eleitorado, mas substância para os credores e para a Alemanha”. Sócrates poderá até ter respondido qualquer coisa como isto. “Vai em frente! Mas faz de modo a eu poder dizer que não aumento os impostos, mesmo que suba a carga fiscal, porque muita gente não nota e, seja como for, está-me na massa do sangue meter umas petas”.

Concluí , então, o que disse em epígrafe, porque nestas coisas há indicadores fiáveis, que estou habituado a usar até por deformação bolsista,  passando a enunciá-los: mercado da dívida soberana, “spread” dos CDSs, WSJ, FT, agências de “rating” e organizações internacionais,   EuronextLx, CGTP/PCP, beato Louçã. Tudo isto é ainda muito preliminar, mas trata-se de um começo razoavelmente fiável.

Passando a pente relativamente fino: Terça-feira lá foram colocados com grande sucesso 990 milhões de euros de dívida pública portuguesa  o que deixou deslumbrada e aliviada a nossa autoridade de crédito público; melhoraram as taxas dos CDSs; o Wall Street Jounal deu bom realce ao êxito do leilão de obrigações, o Financial Times pôs a voz aprovadora do correspondente em Portugal; a OCDE mostrou anuência benévola; a Fitch rezingou com a demora da consolidação, mas vai mantendo o duplo A do “rating”; a bolsa portuguesa subiu 1% no segundo dia do anúncio; a CGTP, pela voz de Carvalho da Silva, já “engrevidou” e Louçã, pelo seu lado, lançou os habituais raios e coriscos. Quer dizer: bons sinais que dão  para ir à oral, com nota promissora.

Claro que há uns idiotas ameaços de cortes aos gestores não financeiros , o que é mais uma forma de penalizar a nata e fomentar a emigração de qualidade,  bem como  uma penalização na tributação das mais-valias, o que por sua vez tem por efeito a fuga de capitais, sendo que ambas as receitas pouco relevo proporcionam no bolo final. Mas são medidas políticas necessárias no domínio psicológico ( há quem apele ao plano moralizador, mas não me parece nada assim, nem percebo o fundamento) e passam bem no contexto. Importante neste domínio seria, sim, a diminuição dos salários dos políticos, segundo o princípio mobilizador, “o exemplo vem de cima”.

Seja como for, coagida ou não, iluminada ou não por uma força superior, nota-se uma inédita formulação de seriedade de origem governamental.

Mas falta muita coisa, nomeadamente no domínio do crescimento e sabe-se bem como as medidas de início de austeridade tem efeitos contractivos. Mas neste ponto  é que é de dar uma volta estratégica quanto ao modelo (2), para não falar da verdadeira consolidaçâo duma despesa primária finalmente racionalizada e desbastada (3). E nem menciono a imprescindível revisão constitucional.

O PEC, para já,  é apenas um papel de intenções. Prometer é fácil, e nisto este primeiro-ministro é “le crême de la crême” . Cumprir é outra coisa, quando, além do mais, se dá como chamariz a  disciplina monástica .

Mas às vezes de coisa pouca nascem raízes para rumos que mudam e esperanças que nascem.

 

  1. Outra versão sustenta que Sócrates foi ver a “Alice no País das Maravilhas” e ficou muito mal impressionado com o destino da Rainha de Copas, mesmo sendo o filme muito mais Disney que Burton.
  2. É assim que se diz ,porque a mim até me parece excepcionalmente pouco modelar.
  3. O acordo com o sindicato dos professores, ou melhor, a rendição incondicional do governo, custando cerca de 500 milhões anualmente aos contribuintes é um sinal prévio completamente desmoralizante, além de oneroso. Parece que já nada  vale a pena.

 

* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

Publicado no Jornal de Negócios dia 12 de Março de 2010

 

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