Sexta, 22 Janeiro 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor dirime de modo não-salomónico a dialética entre os que diagnosticam mau futuro para o PaÃs e os que afirmam que tal preságio desmotiva os portugueses, lembrando que "morte lenta" não é necessariamente "morte anunciada", graças a tratamentos de emergência, pelo que "morte certa" é só com médicos que os não aplicam).
O presidente da República deu o sinal de que o PaÃs não pode continuar a caminhar no rumo do défice, do endividamento e do desequilÃbrio externo e, finalmente, parece que evidências como as que declarou, há muito repetidas por muitas figuras maiores da nação com superior conhecimento especÃfico na matéria, estão a ser escutadas pelos cidadãos. Sempre é o Presidente a falar e Cavaco Silva é tido, adequadamente, como pessoa séria.
O problema, bem o sabÃamos todos, consistia na insuficiente difusão das melhores e mais capazes vozes, imergidas pela estridência e volume sonoro das intervenções governamentais e dos seus lacaios(1). Realmente, que hipótese têm um Ernâni Lopes ou um João Salgueiro ou um Medina Carreira, para só dizer os três primeiros que me apareceram na cabeça, de fazer passar ao PaÃs os seus mais que fundamentados avisos, quando os telejornais, principalmente da oficiosa RTP, no dia-a-dia, abrem e prosseguem com a cobertura do primeiro-ministro, do segundo-ministro e do terceiro-ministro, todos com o mesmo discurso de palavras ocas e enganosas de quem vive em permanente campanha de conservação do poder(2)? Não muitas, ainda que a persistência acabe por dar alguns frutos. Em suma: não é uma questão de bons argumentos, mas simplesmente de tempo de antena.
Com estas e outras chegamos à anotação da Moody's sobre a "morte lenta" do PaÃs, outra maneira de classificar "empobrecimento", situação, aliás, absolutamente indesmentÃvel. Não é preciso ser Nobel da Economia para assegurar que, quando não se lucra há uma década e em jeito de continuar, ao mesmo tempo que se acumulam dÃvidas, a mercearia vai à falência; basta ser a mulher do merceeiro.
E que respostas tivemos, caros compatriotas e companheiros de dor? Gostei daquela de, graças ao TGV, Lisboa se poder transformar na "praia de Madrid", porque imediatamente imaginei Teixeira dos Santos, sempre atento, venerador e obrigado, a correr transportando toalhas de banho a "nuestros hermanos" e a receber as gorjetas para apaziguar os défices. Também gostei daquelas virgens indignadas, a malhar na Moody's pelo seu papel na Grande Crise do Crédito, segundo o negacionista princÃpio, caloteiro, de desancar o mensageiro sem ler nem anotar a mensagem dos credores. Aliás, que interessa , como argumentam, que a Irlanda e a Grécia estejam pior, se o que importa são as nossas penas (com as dos outros aguentamos bem). Não é óbvio, ou estarei a falar japonês das Kurilas?
Mas gostar, gostar realmente, com um riso bem amarelo, é a de o discurso dito derrotista desmotivar os portugueses, ideia, aliás, repetida, recentemente, por Mário Soares(3), o mesmo da crise de 1982, quando o primeiro-ministro era ele, mas quem mandava era o FMI.
(Foi quando a moeda desvalorizou cerca de 20% e nem sequer houve 13º mês para os funcionários públicos, entre outros brindes).
O meu pai, um devoto do humor do paradoxo, à la Chesterton, dizia que "algumas doenças fazem muito bem à saúde". E, realmente, é quando se apanha um susto a sério que se mudam os hábitos de vida, os que nos iriam matar prematuramente. A consciência do perigo e a fé na mudança é que fornecem a motivação, não as mezinhas e as palavras de conforto. Motivar não é negar a realidade, é, antes pelo contrário, enfrentá-la com um discurso, então motivador, apontando os caminhos e os meios necessários e indicando o objectivo, com rigor e transparência.
Sócrates não é um general, antes um coronel do Sertão. Esperemos que isso seja o suficiente, Nossa Senhora ajudando e a Moody's espicaçando.
(1) Deu-me uma súbita saudade pela terminologia m-l. Isto dito, retiro "lacaios" e substituo por "apaniguados objectivos", que é muito mais "soft core".
(2) Nem falo do permanente estado de graça (relativo, claro) em que vive Sócrates , que muita gente teme defrontar, ou o terreno não estivesse juncado de cadáveres.
(3) Mário Soares ganhou, há muito, o direito de dizer o que bem lhe apetece e ser ouvido. Mas espero bem que não desgaste o prestÃgio, pois senadores da República não há muitos e vozes partidárias já são demais.
Â
* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 22 de Janeiro de 2010
Â