Sexta, 13 Agosto 2010 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, estarrecido com mais uma investida modernaça na Educação, lembra que essas "reformas", embora diferentes das catástrofes naturais arrasadoras, deixam danos para gerações sucessivas, e invoca o bom senso para contrapor aos desmandos).
Sim, estou a referir-me à ameaça da ministra da Educação de acabar com os chumbos no Ensino Secundário - embora ela tenha esbatido o susto, anunciando mais tarde que se tratava apenas de abrir o debate (ou tiro de partida?). Sim, digo "chumbos", e não "repetências", porque o "eduquês" faz-me erupções de pele. Sim, digo "eduquês" porque as fórmulas "post-moderninhas" criam-me, além de eczemas, profunda irritação do sistema nervoso central e mesmo lateral. E isto sou eu, pessoa tranquila e dada à moderação, porque há casos de suicÃdios confirmados tendo por motivo o sistema dito de ensino português, cuja tarefa é passar diplomas, e não ensinar.
Se apareço a fulminar a ideia com raios, coriscos, sal e enxofre, não é por reivindicar para mim conhecimentos especiais que não tenho, mas por invocar a solidez do senso comum mais elementarmente elementar, pois pura e simplesmente não há hipótese de todos chegarem ao fim do ano com os conhecimentos necessários para a passagem. E como isso é assim incontestavelmente, então o aluno a quem é dado o imerecido bónus da passagem vai acarretar consigo a falta de bases necessária para prosseguir no conhecimento, sempre deficiente então, principalmente nas disciplinas essenciais da matemática, lÃngua pátria e ciências. Além do mais, esse aluno carrega o seu atraso como um vÃrus contagioso para o grupo, prejudicando o avanço geral, pois a velocidade de uma caravana é a do elemento mais vagaroso. Finalmente, a ideia que se transmite é de facilitismo, irresponsabilidade e falta de exigência, que claramente elimina o incentivo para o aluno ir mais alto, na competição com os outros e consigo próprio.
Dando então como logicamente inevitável a inferior capacidade dos alunos provindos de tais fornadas, teremos que pensar nas inevitáveis consequências para a sociedade. Portugal é um paÃs destituÃdo de bens naturais de riqueza, com excepção do mar, e por isso ou a extrai do material humano ou condena-se em permanência à pobreza. E se não provocar as suas gentes para a excelência rigorosa e competitiva, não poderá jamais aspirar à riqueza. Finalmente, para se alimentar a ascensão e coesão sociais, elementos imprescindÃveis da harmonia grupal a todos destinada, só através da educação de qualidade para os que vêm de baixo se poderá atingir tal desiderato.
Há que ter em conta também que o Ministério da Educação merece todas as desconfianças prévias, ou não fosse verdade que os resultados vão de pÃfios a assustadores, e a única avaliação adequada que existe é a do resultado. O que vemos neste domÃnio desmoraliza a alma mais valerosa, sendo certo que Portugal entra no grupo de paÃses que mais gastam "per capita" em educação enquanto todos os anos descai nos "rankings" internacionais. Ora, para efeitos de determinar causalidades nos sucessivos fiascos, repare-se que, no meio das variáveis, uma constante permanece, a saber, o dito Ministério e a nova pedagogia. Neste clube gosta-se muito da modernidade ou, mais correctamente, modernice. O que motivou o desvaire da ministra foi o método finlandês e, como estes nórdicos andam na moda desde o "design" aos telemóveis, porque não também nesta inovação - digo eu, maldosamente? É que as notÃcias que chegam são no sentido de apontar para a quantidade e qualidade de meios postos à disposição do sistema para obstar as óbvias carências e deficiências, aliás, destacadas acima em generalidade. Entram, pois em acção psicólogos e pedagogos auxiliarmente, enfrenta-se a dupla velocidade com assistentes e acompanhamento especial, arrastam-se os pais para o epicentro... Aliás, invocando-se mais uma vez o bom senso, parece claro que antes de entrar de supetão nas "post-modernices", difÃceis e duvidosas, haverá que corrigir as inúmeras insuficiências que afligem o sistema e provocam os maus resultados. O antes, primeiro; o depois, se devidamente experimentado e aprovado, mais tarde.
E isto não vai de debates, como veio declarar posteriormente a ministra, enfrentando os gritos na zona dos 15.000 hertzs dos eruditos, ou ainda acabamos governados à Prós e Contras (salvo seja!).
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* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Publicado no Jornal de Negócios dia 13 de Agosto 2010
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