Sexta, 29 Julho 2011 00:00

Por Fernando Braga de Matos*
(Onde o autor, absolutamente seguro de ser escutado pelo A. J. Seguro, deixa uns palpites de fina água e recomendações de igual timbre para o PS, agora exorcisado de Sócrates, e assim regressado ao chamado concerto das nações).
Depois de quase 15 amos de governação socialista - com o interregno Barroso/ Santana - o PaÃs, pediu pé sanga e deixou a penosa purga necessariamente para outros. Mesmo reintroduzida a polémica civilizada, baseada nos princÃpios da boa fé e da discussão cordata, com um notório apaziguamento duma crispação patológica, o inventário é catastrófico. Desde a necessidade de recorrer a ajuda financeira internacional, com o acumular de défices, dÃvidas e crescimento permanente da despesa, até ao miserável crescimento económico dos últimos 12 anos (182º no ranking mundial, segundo o FMI), passando pela arrogância e mentira sistemática e o assalto ao poder por colocação de membros fiéis nos centros de decisão, até ao silenciamento de vozes incómodas, tivemos de tudo. Se não se pode dizer que não deixaram pedra sobre pedra, isso deve-se ao facto de o PaÃs estar coberto a asfalto.
Com Guterres, pessoa de bem e que levou o meu voto graças à rosa da "terceira via", abriu-se o cordão à alforria do gasto, e a oportunidade para uma excelente piada de Durão Barroso: " Se houvesse prémio Nobel do despesismo, V. Exa. seria seguramente laureado". Assim chegamos rapidamente ao "pântano" e ao tÃtulo de primeiro paÃs a violar o Pacto de Estabilidade e Crescimento". Mas é Sócrates que representa tudo o que de mau existe na polÃtica, nos polÃticos e na governação, isto não obstante se ter iniciado de forma promissora. O perfil pessoal já estava delineado, com o CV para a Assembleia da República, as licenciaturas pÃfias, as licenças esquisitas do Freeport ou os negócios tipo Cova da Beira. Pessoas assim atraem Varas não Gaspares (e os Campos fogem), esbatem facilmente a percepção do serviço público pela promoção e pela hubris do poder e, subsequentemente, os resultados são em conformidade e espelham-se nas casinhas abortivas das Beiras com a sua assinatura… e na falência do PaÃs.
O Partido Socialista que Sócrates moldou ficou representado no Congresso de Matosinhos que eu segui entre fascinado e incrédulo na TV. As imagens sugeriam uma amálgama de mortos-vivos de Cesar Romero e crentes da IURD, entre evocações lancinantes e elogios rocambolescos, passando pela tirada de um personagem notável: "Vai-te a eles Zé!" (sic).Tudo isto foi regado com mais de 97% dos votos em vésperas da histórica derrota nas eleições nacionais, em boa ilustração do ambiente de alienação e irrealidade.
Uma entidade com este palmarés, numa visão moderada para amigos, necessitaria pelo menos de uma "desbaathificação", mas ficar por António José Seguro e uma nova concepção já não é nada mau. Quem esteve no poder tanto tempo, com tantos tiques de Partido Revolucionário Mexicano, bem precisa de uma cura de oposição, como diz Mário Soares, e anda lá muita clientela a precisar de subsÃdio de desemprego. Seguro deve conhecê-los, até o trataram como leproso no assaz citado Congresso de Matosinhos. Mas, se eu fosse socialista, diria que o essencial neste grande partido de poder e oposição é a autocrÃtica para as polÃticas que levaram o paÃs ao ponto onde chegamos, em permanente recusa da realidade. O socialismo à portuguesa, como aliás o socialismo em geral, acaba por ser um projecto de intenções e não de resultados, em que no final há-de haver alguém que apareça a salvar o que pode ser salvo e a pagar as contas por liquidar.
O partido socialista voltou ao signo do punho fechado, uma emanação das duras lutas sociais dos séculos anteriores que os partidos social-democratas substituÃram com grande sucesso pela cooperação. Mas não ganhou nada com a alteração e muito menos os que foram assim governados à marretada. Tanto invoca o PS o exemplo dos estados do norte da Europa, aliás actualmente governados à Direita, e tão difÃcil parece ser avocar os grandes princÃpios e métodos que lhes deram sucesso: boa governança, pragmatismo, flexibilidade, responsabilidade fiscal, mercados competitivos e estado forte mas adequadamente contido. Assim sendo, ficar mais à esquerda ou mais à direita passa a ser mera topografia, pelo menos no que ao simples cidadão concerne.
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* Advogado, autor de " Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
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Publicado no Jornal de Negócios dia 29 de Julho de 2011
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