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Sábado,�24 deJunho,�2017

A charuteira

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por João César das Neves*

Será Portugal um país desenvolvido, rico, civilizado? Os recentes episódios que revelam a teia de poder à volta do Grupo Espírito Santo (GES) justificam que se pergunte se estaremos no Terceiro Mundo.

A resposta da elite é clássica, e descrita genialmente por João da Ega: "Isto é uma choldra torpe. Onde pus eu a charuteira?" (Eça de Queirós, 1888, Os Maias, c. IV). Os nossos intelectuais sempre desprezaram pedantemente o País e sentem prazer em humilhá-lo. Daí poderíamos até concluir que, com uma elite destas, é impossível Portugal ser civilizado. Mas dizer isso seria tomar a mesma atitude dela, contra ela.

Temos bons argumentos para nos considerar desenvolvidos. Podemos invocar a nossa história, cultura e projecção mundial, que nos mostra como entidade indiscutivelmente sólida, relevante e digna. Mas isso não basta como prova. Países com património e herança semelhantes mostram falhas fatais de funcionamento, como a Grécia ou a Argentina. Carácter, presença e longevidade são condições necessárias, não suficientes para a civilização.

O teste decisivo do nível de um povo está nas crises. É nos momentos difíceis que se sente a fibra colectiva. A blitz de Londres mostrou o Reino Unido sumamente civilizado, e foi sob ocupação que países como a França, a Polónia e depois a Alemanha revelaram a sua eminência.

As crises socioeconómicas têm pontuado as fases do nosso progresso comunitário. Após o 25 de Abril, os programas de ajustamento de 1978-79 e 1983-85 marcaram a nossa estabilização como sociedade livre, admitida ao clube dos parceiros europeus. O crescimento subsequente fez-nos um país rico, como provou a recessão de 1993, a primeira na CEE, com comportamento claramente diferente de instituições, empresas e consumidores. Assim, pelo menos desde meados dos anos 1990 o País participa naturalmente e de pleno direito do concerto das nações civilizadas.

Será então possível saber se passámos no teste? Existem sinais negativos mas inofensivos. Política e orçamento correram mal, como em todo o lado. Também não se devem confundir crimes e erros com falta de civilização. O caso BPN é paralelo a Madoff, enquanto BPP, Banif e BCP são menores do que o Lehman Brothers. Problemas assim, mesmo degradantes, são comuns em comunidades sofisticadas. Olhando para os dados objectivos, dos níveis de rendimento aos da saúde, passando por comportamentos sociais e culturais, Portugal é sem dúvida um país civilizado. O único problema está nas elites, que frequentemente nos arrastam para o Terceiro Mundo.

A primeira prova é mediática. Perante esta austeridade, intelectuais, jornais, dirigentes e até juízes, mesmo sem charuteira, não tiveram pejo em dizer os maiores disparates. Com a arrogância habitual, a elite omitiu, distorceu, barafustou infantilmente e propôs soluções tolas. Mas isso não é o pior.

Na última década respira-se em Portugal um clima de compadrio, maquinação e cabala ao mais alto nível, que cresceu silenciosa mas inexoravelmente. Os anos Sócrates manifestaram-no a vários níveis; nos referidos escândalos bancários, por exemplo, além de irregularidades financeiras, sentiram-se intrigas palacianas vastas, profundas e complexas, sobretudo no BCP, que são alheias a uma sociedade equilibrada.

A recente explosão do GES, com todas as suas ramificações, constitui a flagrante confirmação pública da podridão latente nos níveis altos do nosso poder político-económico. O pior não está na dimensão da dívida ou nos efeitos económicos, mas no grau de conspiração e decadência que revela. Fenómenos destes são característicos de sociedades atrasadas, regimes corruptos, sistemas perversos. A sua ausência é condição indispensável da civilização.

Corrupção há em todo o lado. Os países cultos são, não imunes à doença, mas aqueles onde tradições, regras e instituições dominam essas tendências. Portugal é um país civilizado. Mas alguma elite mostra traços do Terceiro Mundo, da choldra torpe de Eça. A forma como limparmos o caso GES mostrará se passámos o teste para país desenvolvido.

 

 

naohaalmocosgratis (at) ucp.pt


*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.


 

Publicado no Diário de Notícias dia 28 de Julho 2014

 

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