Segunda, 26 Abril 2010 00:00

por João César das Neves*
As coisas à distância surgem alteradas. Por isso os heróis e vilões da história pareceram em geral muito diferentes dos contemporâneos. As duas visões são válidas, aspectos distintos de personalidades e épocas complexas. Isso vê-se bem tentando adivinhar como a nossa realidade será descrita daqui a séculos.
O tempo realiza dois fenómenos sobre o panorama de uma era. Primeiro esquece pormenores e reduz o relato aos traços estruturais. Depois concentra os actos e ideias de multidões no lÃder do momento. Por isso, por muito que surpreenda, é provável que José Sócrates fique na história de forma distinta daquela como o vemos, como o monstro que vandalizou a famÃlia e a cultura portuguesas.
Em breve desaparecerão as questões que hoje dominam a polÃtica nacional. Défices, escândalos, obras, reformas parecerão detalhes Ãnfimos aos nossos descendentes. Aquilo que chocará o futuro são sem dúvida as tentativas radicais e atabalhoadas na legislação da famÃlia.
Se virmos com atenção, é impressionante o número e alcance das medidas de alguns meses. Em lugar destacado está a lei do aborto de 2007, responsável pelo morticÃnio de milhares. Às próximas gerações não passará despercebida a enorme fraude polÃtica de usar um referendo não vinculativo sobre a despenalização para impor não só legalização mas fomento com dinheiro de impostos. Deste modo, uma simples decisão inverteu totalmente a atitude legal face à prática, da proibição à promoção descarada.
O aborto é apenas um aspecto, de longe o mais sangrento, da vasta investida recente contra a vida. A "lei da procriação medicamente assistida" de 2006 assumiu um regime laxista e irresponsável na protecção ao embrião humano, ultrapassando o pior do mundo. As leis do divórcio de 2008 e uniões de facto de 2009 constituem enormes atentados à instituição familiar, só comparáveis à campanha de 2010 pelo casamento do mesmo sexo. Mais influente, o Estado sob a capa de educação sexual impõe à s crianças e jovens a sua ideologia frouxa e lasciva. A tolice atinge o paroxismo em detalhes ridÃculos, como as praias de nudistas onde se anuncia regulamentação. Em todos os casos fez--se a coisa de forma apressada, ligeira e arrogante, à maneira dos tiranos de antigamente, sem respeito por instituições e articulados seculares.
Tudo isto são só papéis, que se mudam facilmente. Mas, mesmo que mudem, à distância tudo parecerá resultado de obsessão manÃaca. Até porque os efeitos nefastos são bem visÃveis. Desde 2007, a mortalidade ultrapassou a natalidade. Portugal é o paÃs com menor fertilidade na Europa ocidental, das mais baixas do mundo. Esta catástrofe demográfica faz de nós um povo em vias de extinção e ameaça a nossa herança e cultura. O número de divórcios é mais de metade dos casamentos, enquanto a coabitação precária e os filhos fora do casamento explodem, gerando lares esfarrapados, insucesso escolar, de- pressões, miséria, crime.
O futuro não compreenderá que o Governo não só não o note mas se encarnice em agravá-lo. As gerações vindouras só o entenderão atribuindo-o a um magno plano malévolo, como fazemos a Nero, Napoleão ou Hitler. A teoria vácua da "modernidade" invocada em discursos, será vista como capa para propósitos sinistros, cultos sexuais, taras pessoais, desequilÃbrios doentios.
Sobretudo será impossÃvel convencer os longÃnquos do que para nós é evidente. Todas estas medidas de profundo alcance foram tomadas mais por descuido que desÃgnio, na distracção da conjuntura. Para quem apenas pensa politicamente nos tÃtulos do fim- -de-semana, as mudanças radicais na mais estrutural legislação são detalhes retóricos, meras formas de polir os emblemas de esquerda embaciados pela polÃtica económica. Por exemplo, nem sabem o que fazer do colapso demográfico. Nestes ataques à vida e famÃlia, vê-se mais inconsciência que maldade, irresponsabilidade que propósito, desdém que planeamento.
Mas, tudo considerado, os nossos netos são capazes de ter alguma razão. Afinal, à distância vê-se o que a confusão do momento esconde.
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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.
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Publicado no DN dia 26 de Abril 2010
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