Quinta, 20 Janeiro 2011 00:00

por João César das Neves*
Na longa história da democracia fictÃcia, os últimos meses desceram mais um nÃvel. No final do ano passado renovou-se uma forma rara dos ditadores resolverem as dificuldades das eleições.
Temos tido campanhas distorcidas, intimidação da oposição, compra de votos, manipulação de resultados, fraudes eleitorais. O que é bastante mais estranho é um presidente, no poder há dez anos com uma guerra civil, perder as eleições, não ligar e manter-se no cargo.
A Constituição da Costa do Marfim impõe um limite de dez anos para o mandato presidencial. Além disso, o candidato oposicionista Alassane Ouattara teve 54,1% dos votos. Apesar disso o presidente Laurent Gbagbo não cedeu o cargo e mantém-se desafiador.
A pressão internacional, sobretudo do Ocidente, tem forçado muitas ditaduras, tiranias e regimes musculados a adoptarem uma camuflagem democrática. Toda a gente sabe que se trata de ficção e a comunidade internacional até in-ventou a figura do observador para medir o grau de aldrabice, escolhendo tolerar as fraudes moderadas.
Isto, em si mesmo, é uma coisa boa. Se alguém é ditador, ao menos tenha a vergonha de o negar e pretender legitimidade. Fingir aceitar a hegemonia da vontade popular e dar-se ao trabalho de a manipular é melhor que um autoritarismo descarado. O insólito desplante de Gbagbo arrisca-se a destruir estes pequenos avanços.
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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.
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Publicado no Destak dia 20 de Janeiro 2011
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