Liberty Silver - Moedas de Prata sem IVA

Liberty_Silver_PT

Facebook BI

Sexta-Feira,�23 deOutubro,�2020

O desafio da geração

 

joao_Cesar_das_neves

por João César das Neves*

Esta crise é um grande teste. Perante a desgraça, todos somos postos à prova. Para a maior parte de nós, esta situação é mesmo o desafio da nossa vida.

Um dia perguntarão o que fizemos na grande recessão, como hoje dizemos da Guerra Colonial ou do 25 de Abril. Muitos terão de responder sinceramente que foram parte do problema, não da solução. Terão de dizer que protegeram benesses, sabotaram reformas, resistiram à mudança, incitaram ao ódio.

A tentação da revolta e desânimo é bem compreensível. O pior da conjuntura, o verdadeiro mal que cria no tecido social é a surpresa, a desilusão, a indignação. Confiávamos no sistema que faliu e surgiu o oposto do prometido. Muitos sofrem muito, mas o que mais ocupa os nossos protestos é o desalento, a queixa, a fúria. Este país deixou-nos outra vez ficar mal. Ouvimos muitas histórias degradantes de injustiças, mentiras, direitos violados, inocentes sofrendo, corruptos e burlões. Grande parte é falsa, pois a fúria cria o exagero, mas muitas são verdade. Assim, multidões de argumentos justificam a atitude negativa. O efeito de todas é sempre promover propostas repulsivas, nunca construtivas. A receita é denúncia, revolta, violência, nunca compreensão, solidariedade, perdão.

Perante a indignação é fácil esquecer os valores que sempre guiaram a nossa vida, ou que dizíamos que guiavam em tempos mais serenos. Vemos pessoas honestas dizer e fazer coisas brutais. Quantos cidadãos pacatos não repudiam agora a lei e a autoridade, rejeitam a democracia, desprezam o País, recomendam violência e revolução, agridem o próximo? Todas estas atitudes justificam-se como luta pela justiça, mas apenas produzem vingança. Foi assim que surgiram as maiores barbaridades da história: Hitler e Ben Laden diziam responder a ataques. Invoca-se a dor e a iniquidade, mas isso apenas revela a fragilidade das antigas convicções, renegadas logo que testadas.

Perante o embate é possível subir ou descer. Podemos enfrentar ou criticar, inovar ou gemer, criar ou agredir. É agora que o nosso carácter, a fibra, as raízes, as convicções profundas mostram o seu valor. O embate é brutal e muitos cedem. É fácil desanimar, desistir, acusar, insultar, agredir, odiar, mas o problema fica na mesma. Um pouco pior. Difícil é subir ao nível da dificuldade e enfrentá-la. Vencer ou perder, mas encará-la. Como o fizeram as gerações antigas em encruzilhadas bem mais duras.

O pior da crise não é o desemprego, as falências, a pobreza, o desânimo. O mais negativo não é o peso financeiro, a recessão económica, o choque social, a desorientação política, a paralisia cultural, o bloqueio institucional. O pior da crise é o ódio. Só o ódio poderia realizar as irresponsáveis previsões catastrofistas que dominam a imprensa. O ódio é a única força que pode perpetuar o mal, deixando cicatrizes na economia, na sociedade, na política e na cultura. A situação justifica repulsa, angústia, desânimo, até mesmo desespero ou revolta. Mas não pode justificar o ódio, porque nada o justifica. O ódio nunca nasce das circunstâncias, mas da atitude face às circunstâncias. O ódio, mesmo mascarado de justiceiro, nunca tem razão. É sempre um mal arbitrário, abusivo, inaceitável.

Portugal vencerá o teste, como venceu outros muito maiores. Da crise nascerá um país mais justo, dinâmico e equilibrado. A única dúvida é como cada um de nós se coloca neste processo. Como em épocas passadas, podemos estar do lado do futuro ou da reacção. Podemos desistir, protestar, exigir, gemer, insultar ou, pelo contrário, encarar as dificuldades, procurar resposta, construir a solução. Destes, apenas destes sairá o novo Portugal. Não é do Governo, política, troika, Europa, FMI, que ajudam ou complicam, e geralmente complicam mais do que ajudam. A saída da crise depende de milhões de cidadãos anónimos tentando melhorar a sua vida e encontrando a resposta. Se a percentagem dos que vencem o ódio for superior à dos seus promotores, Portugal passa o teste. Só o nosso carácter, a fibra, as raízes e as convicções profundas nos permitirão vencer o desafio desta geração.

 

 

Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.


 

Publicado no Diário de Notícias dia 31 de Dezembro 2012

 

Comentários (2)

Subscrever RSS deste comentário.

Exibir/Ocultar comentários.
...
o que tu queres e demais canalhas como tu sei eu bem...que o pessoal coma e cale e não tente mudar o status quo que serve precisamente os abutres como tu
paulo , 21 de Janeiro, 2013
A crise
Concordo com o seu comentário.
As crises deveriam ser vistas como uma oportunidade de as pessoas se unirem por razões positivas e não como acontece em Portugal que só se unem pela negação e pelo ódio, a inveja entre outros adjectivos. Eu também vivo a crise mas vivo de cabeça levantada, também perdi o trabalho devido à crise e não fui para a rua criticar ninguém nem apoiar nenhuma revolução, apoiava sim se houvesse uma revolução em que apoiasse o governo e que fosse uma revolução positiva em que houvesse troca de ideias e houvesse uma atitude para levantar o país, porque não é o governo o responsável pela crise, mas somos todos nós que por mais que nos custe temos que assumir que erramos ou que nos encostamos à sombra da bananeira no tempo das "vacas gordas". Nas crises estão as oportunidades e da crises nascem as ideias geniais onde muita gente cresce na vida porque arriscou numa crise que aconteceu e nunca arriscaria senão houvesse tal necessidade. As crises servem para reconstruir melhor e com mais eficiencia os países e para mudarem mentalidades e é isso que Portugal está a fazer. Acredito nas pessoas que estão no Governo e vejo que Portugal no longo prazo vai ter uma excelente perspectiva de crescimento. Quanto mais cedo as pessoas perceberem que devem criar oportunidades da crise e procurarem em audar o proximo em vez de invejá-lo perceberão que as oportunidades aparecem e que conseguem o que não esperavam.
Atitude positiva de Portugal é o que espero para sairmos ainda com mais força desta crise.
Sejam Positivos!
Cumprimentos ao professor João César das Neves
Roberto , 02 de Fevereiro, 2013

Escreva um comentário.


busy

AVISO: A informação contida neste website foi obtida de fontes consideradas credíveis, contudo não há garantia da sua exactidão. As opiniões aqui expressas são-no a titulo exclusivamente pessoal. Devido à variação dos objectivos de investimento individuais, este conteúdo não deve ser interpretado como conselhos para as necessidades particulares do leitor. As opinões expressas aqui são parte da nossa opinião nesta data e são sujeitas a alteração sem aviso. Qualquer acção resultante da utilização da leitura deste comentário independente do mercado, é da exclusiva responsabilidade do leitor.