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O postulado SPECTRE

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por João César das Neves*

Pense na origem da crise que nos aflige. Considere os causadores dos males, corrupções, crimes, explorações. Falamos muito mas pouco sabemos deles. E devíamos saber. Desde a antiguidade os sábios recomendam o conhecimento dos inimigos. Ajuda-nos a compreender o mundo.

Primeiro é bom situá-los, saber quem são. A maior parte acusa os políticos, os corredores do poder, salas de ministérios, gabinetes do Parlamento. Lá estão os manipuladores emproados que roubam o povo e destroem a liberdade. Outros dirigem a sua atenção para a economia, os conselhos de administração, bancos e mercados financeiros onde se compra influência e se vende felicidade. Há também os que lançam acusações a lugares mais distantes: o Clube de Bilderberg, os encontros de Davos, Internacional Socialista, Vaticano, império americano, Al-Qaeda, Maçonaria, Opus Dei, etc. Cada um destes, e muitos outros, têm em comum serem criticados, insultados e acusados pela desgraça do mundo.

Pode resumir-se esta teoria de conspiração numa palavra: SPECTRE. Os filmes de James Bond, agente 007, costumavam começar com uma reunião dos maus planeando a destruição do planeta. Hoje a cada passo encontramos quem baseie nisso a explicação da situação mundial. Em particular desde a crise financeira de 2008, a ideia do grupo de maus tornou-se contagiosa. Varia a identidade, acusando-se as mais diversas instituições, mas não enfraquece a certeza. Um exercício interessante é considerar precisamente esse grupo, quem quer que seja. Olhe então para o seu ódio de estimação.

A primeira coisa a notar é que lá estão seres humanos. Não são monstros, extra-terrestes, zombies, psicopatas ou super-heróis. Apesar da propaganda cinematográfica, na vida real esses seres míticos não existem. Só cá estamos nós. No local de todos os males há apenas gente. Pessoas que tiveram pai e mãe, que amam, sofrem, têm sonhos, desilusões, medos e alegrias. Todo o mal do mundo é feito por gente.

Este é o ponto central do exercício: ver o inimigo como uma pessoa. Vê-lo como próximo. Alguém como eu, que olha as coisas de forma diferente da minha. Às vezes, é preciso dizer, sou eu mesmo. De facto, ao definir a causa suprema do mal, muitos incluem aí gente como nós. Árabes e chineses acusam os ocidentais e vice-versa, como patrões e sindicatos, alunos e professores, clientes e lojistas se vêem mutuamente como culpados. Ora no banco dos réus as acusações parecem bem diferentes.

Mas se são gente, como podem fazer as coisas horríveis de que os acusamos? Como podem ser tão sedentos de dinheiro e poder? Tão obcecados pelo lucro e glória? Tão insensíveis ao mal alheio, miséria, injustiça? Como podem ser como são? Há várias respostas para a questão, todas educativas.

A explicação simples é que, afinal, não sejam como eu os vejo, e a minha acusação seja falsa. O mundo é muito mais complexo que as minhas teorias. As certezas que obtive por extrapolação linear, e que acabam na acusação taxativa, estão bastante longe da verdade. Ver o ponto de vista do inimigo ajuda a perceber isso. Nesse caso eu terei de abandonar o que me é mais querido, o meu ódio de estimação.

O ódio é sempre mau conselheiro. Mesmo quando tem razão. Por muito simplista que a minha teoria seja, ela tem sempre um grão de verdade. Conhecemos casos de pessoas sedentas, obcecadas, insensíveis. Afinal os seres humanos podem ser horríveis. Eu sei, porque o sou há muitos anos. Os homens são capazes do melhor e do pior. Como eu.

Apesar disso, sendo humanos, todos partilham a característica fundamental: procuram a felicidade e querem ser amados. Mesmo o pior bandido é assim, por ser humano. É fácil esquecê-lo no meio das nossas acusações. Porque ao descarregar as fúrias no nosso SPECTRE ficamos sedentos, obcecados, insensíveis, capazes do pior. E assim damos razão aos que nos acusam. "Nunca mandes saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti" (John Donne, 1624).

Os sábios recomendam o conhecimento dos inimigos. Apenas um disse para amarmos os inimigos: Mt 5, 44; Lc 6, 27.



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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no Diário de Notícias dia 20 de Agosto 2012

 

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