Segunda, 15 Março 2010 00:00

por João César das Neves*
A horrÃvel tragédia da Madeira trouxe à nossa atenção a figura de Alberto João Jardim, personalidade incontornável, de novo com uma tarefa decisiva. É bom analisar e reavaliar a sua carreira.
Mas que há a avaliar? Não está o veredicto sobre Jardim feito há muito? Não definiu a inteligência nacional há décadas uma opinião negativa sobre o tiranete do Funchal? Aliás, não confirma esta catástrofe essa opinião, tendo as obras faraónicas da ilha potenciado a catástrofe?
Para aqueles, e já não são muitos, que ainda acreditam que vivemos num paÃs livre, essa resposta não satisfaz. Aos que confiam na sua inteligência para fazer juÃzos, e não em jornais ou preconceitos estabelecidos, a figura de Jardim é interpelante. Claro que nos dias que correm acreditar que existe liberdade de expressão e pensamento em Portugal é arriscado. Pode dizer-se o que se quiser, mas estas situações mostram como a opinião pública pode ser intolerante e despreza quem não repete aquilo que "toda a gente sabe". Descobrirá isso se disser algo de novo sobre aquecimento global, bónus dos banqueiros ou a classe intelectual.
Alberto João Jardim é, objectivamente, o polÃtico português mais bem-sucedido da actualidade. Não só completará a 17 de Março 32 anos num lugar cimeiro do Estado, mas conseguiu aà um sucesso espantoso. Quando assumiu o cargo, a Madeira era uma das zonas mais pobres do PaÃs. Hoje é uma das mais ricas. Segundo os dados da União Europeia, em 1995 estava abaixo de Lisboa, Algarve e Alentejo, pouco acima do Norte, com um nÃvel de vida a 65% da capital. Em 15 anos, segunda metade do seu mandato, ultrapassou de longe os concorrentes para se situar em segundo lugar nas sete regiões do PaÃs, com 92% do nÃvel de Lisboa e vale do Tejo. Qualquer polÃtico, de qualquer cor, gostaria de apresentar resultados destes.
As crÃticas habituais têm fundamento evidente. A sua prestação financeira é muito grave e irresponsável e nós todos pagamos a popularidade dele. Mas a culpa disso é mais dos ministros das Finanças nacionais que de quem se aproveita deles. Existe inevitável compadrio e acomodação na ilha após tantos anos no poder. Mas nunca ninguém lhe apontou pessoalmente o menor indÃcio de corrupção, o que não se pode dizer de muitos dos crÃticos. E até teve a sensatez de nunca se tentar a voos mais altos. Não há dúvida que a gestão de Jardim tem enormes vÃcios, atropelos e problemas, que ele aliás não esconde, ao contrário dos demais. Os resultados eleitorais, porém, mostram o apoio de que goza. E não se diga que isso é como Chávez, Castro ou Mugabe. Por muito que se critique, Madeira é Portugal, não Venezuela ou Cuba, e a democracia funciona. Prova disso é que mais ninguém consegue os resultados de Jardim. Nem certamente o seu sucessor.
Mas não terão sido as suas obras públicas, motor da popularidade, em grande medida responsáveis por este desastre? Pior ainda, não vai a reconstrução servir para promover precisamente os mesmos que as fizeram? Não existe aqui uma grotesca farsa, onde a fúria dos elementos salva o ditador da decadência?
Se quisermos ser justos vemos que a tempestade seria sempre devastadora. É verdade que as imprudências no ordenamento do território aumentaram a desgraça. Se uma terra se chama Ribeira Brava, não admira que as águas a levem. Mas aqui existe um erro económico, pois é preciso contrabalançar o actual acréscimo de estragos devido à s obras com os benefÃcios que elas tiveram durante décadas. Preferiam os madeirenses ter vivido sem as infra-estruturas para agora, perante a tempestade incomparável, ter melhor escoamento de águas?
Alberto João Jardim é, e será sempre, controverso. O seu principal valor está em ter conseguido uma carreira polÃtica invejável sem vassalagens a opinadores, preconceitos e dogmas culturais. Num tempo de polÃticos de plástico, é refrescante ver um homem de carne e osso, com defeitos e qualidades patentes, não temer ser o que é perante esta imprensa e sociedade, supostamente tão rebeldes, mas realmente tão moralistas.
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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.
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Publicado no DN dia 15 de Março 2010
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