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Os benefícios da crise

 

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por João César das Neves*

Os portugueses gostam mesmo de política. No meio de uma crise terrível perdem tempo a discutir medidas, ministros, partidos, como se só Governo e Parlamento tivessem culpas e soluções. Distraídos com debates espúrios, perdem a realidade debaixo do nariz.

Esta crise é a inevitável travagem após anos de caminho errado. Invertendo o rumo, ela criará a estrutura económica e social que lançará o próximo surto de desenvolvimento. É aí, não nas tricas dos poderosos, que se joga o futuro nacional. E está a acontecer, apesar da distracção com folhetins.

Os custos e sofrimentos são grandes, mas têm efeitos. A crise leva à falência de milhares e desemprego de centenas de milhar. Essa é a única via dolorosa da recuperação, transformando e reforçando o aparelho empresarial. É um terrível duche escocês, indispensável para expurgar a escória que se colou à economia. É preciso encontrar novas ocupações, novos produtos, novas vias. É duro, mas Portugal resistirá e ficará mais forte, ágil e sólido, para enfrentar os desafios europeu e global.

Já se vêem resultados. Quase ninguém notou, mas nas contas nacionais do último trimestre, pela primeira vez desde a entrada na CEE, a balança comercial ficou positiva. A última vez que exportámos mais do que importamos foi no último programa do FMI em 1983-85. Isto significa que a receita voltou a funcionar. Este é o bom caminho. O elemento decisivo está, não no Governo e políticas, mas na mudança de atitude de famílias e empresas. Regressam os bens velhos hábitos.

Nos primeiros 20 anos após 1974 os portugueses tomaram uma posição responsável, prudente, comprometida, temerosa mas decidida. A vida era muito pior que hoje, os perigos grandes e as tarefas exigentes. Era preciso construir uma democracia sólida e cumprir os requisitos comunitários. Mostrámo-nos à altura dos dois desafios. No meio de turbulência e perigos, o país foi coeso, diligente e criativo, como raramente fora. Foi um sucesso espantoso.

O sucesso inverteu a atitude. Na terceira década, pouco a pouco, o país foi-se acomodando. Cada um exigia direitos, esquecendo deveres. Dominava a mentalidade instalada, reivindicativa, exigente. A União Europeia passou de desafio a mecenas. Nenhum país se desenvolve assim. Não admira a "década perdida" desde 2002.

A loucura era visível. Subiam exigências e custos na saúde, educação, justiça, segurança, ambiente, sindicatos, transportes, etc. Adoptavam-se critérios europeus que não podíamos pagar. Multiplicavam-se hábitos de rico e reclamações espúrias, sempre ligadas a interesses lucrativos. Coisas que antes tinham servido eram agora desdenhadas. Os portugueses eram requintados como alemães com produtividade lusitana. A sociedade entorpecia e o Estado acudia com dinheiro emprestado. A dívida externa explodiu.

Em 2011 felizmente tudo mudou. Os empréstimos acabaram e foi preciso ter juízo. Reaprendemos então o que sempre soubéramos, mas estivera escondido por 17 anos de ilusões. Famílias e empresas retomam velhos hábitos de poupança, economia, imaginação e modéstia. Reatam-se laços de solidariedade, familiares, empresariais, comunitários, que uma confiança exagerada na assistência pública tinha enfraquecido.

O Estado teve de recuar da posição de mamã, obsessiva e omnipresente, para as funções de legislador, regulador, governo. Pessoas e empresas percebem que não vale a pena pedir ajuda às autoridades, ainda mais aflitas que elas. A todos os níveis perde-se a atitude parasitária e pedincha, regressando à saudável autonomia, iniciativa e autoconfiança indispensáveis no actual mundo global. Assim Portugal vencerá os desafios.

É difícil mudar hábitos de 17 anos. Os protestos são o último estertor da antiga mentalidade. Muitos sentem-se mesmo indignados por o Estado tirar o que nunca pôde pagar. Até acreditam que outros ministros fariam diferente. Trocar de Governo não mudaria nada, só atrasaria tudo. Felizmente na sociedade a ingenuidade passou. Não é preciso um novo 25 de Abril. Apenas voltar ao espírito de Abril.


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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.


 

Publicado no Diário de Notícias dia 1 de Outubro 2012

 

Comentários (1)

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Assim de repente..
Assim de repente parece que os ultimos 17 anos não foram em grande parte da responsabilidade de politicos, que calcule-se, fazem politica...

Parece-me normal que se queira discutir modelos de "gestão", tendo em conta que os resultados da equipa são maus e fazendo uma anologia ao nosso "querido" futebol, quando não se produzem resultados... muda-se o treinador , dirigentes e jogadores...

Claro que concordo que o facto nossa balança comercial estar positivo é relevante.. mas não deixo de me perguntar: a que custo? corta-mos onde devíamos? ou onde servia interesses de alguns? Foi o melhor para Portugal? Ou para uma conjunto de dirigentes que teimam em dizer que temos que fazer esforços, mas, são os primeiros a esquecerem-se que eles também fazer parte disto?

É preciso mudar hábitos.. sim claro que sim.. mas mudar de cima a baixo... e não só em baixo..

Pedro Rosa , 01 de Outubro, 2012 | http://...

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