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Sexta-Feira,�23 deOutubro,�2020

Problemas insolúveis

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por João César das Neves*

Esta crise reforçou um velho defeito nacional. É espantoso o tempo que se perde com problemas irresolúveis.

O mal está, não no seu grau de dificuldade, mas na forma de os colocar, que impede a solução.

Tudo começa na análise da situação. Surpreende a quantidade de especialistas que, em vez de tentar compreender e explicar, prefere assustar e deprimir. Delineando um diagnóstico, acumulam todos os defeitos, vícios, dilemas e obstáculos que conseguem entrever, tomando o seu pessimismo como visão realista da circunstância. Confundem queixas com avaliação, descrevendo os cenários mais horríveis e as acusações mais gravosas.

Não está em causa a veracidade dessas afirmações, mas o seu enviesamento e tacanhez. A realidade, toda a realidade, tem sempre riscos latentes, ameaças potenciais, vícios perigosos. A história só continua através das linhas de abertura, valores positivos, possibilidades criativas que também lá estão. O que somos é resultado daquilo que, através de temores assustadores, acabou por resistir e frutificar. A sabedoria está, não em localizar os pavores, mas em encontrar o bem.

Pior ainda, depois de empilhar todos os males e erros... nada. Não dizem mais nada. Limitam-se a sorrir com satisfação mórbida pelo retrato devastador, achando que isso basta. Apontar medos e riscos só é útil se acompanhado de resposta eficaz. A falta de solução, que inevitavelmente resulta de visão tão negativa, parece-lhes razoável. Alguns ainda balbuciam generalidades ocas, como a urgência de mudar mentalidades, mas a maioria contenta-se com o cenário catastrófico, congratulando-se pela genialidade da ameaça. Está tudo mal. Pronto!

Daqui sai uma outra atitude que, embora sumamente estúpida, é hoje aceite como razoável: a mania de meter dedos nas feridas e atirar pedras aos charcos. Basta pensar um pouco para ver como esta actividade, de que tantos se gabam, é supremo disparate. As chagas não ficam melhores, mas piores, quando lá se mete o dedo e uma pedrada na lama só serve para salpicar toda a gente. A alegada utilidade da prática advém da denúncia perante a comunidade em negação. Isto começa logo por ser falso, pois úlceras e poças costumam ser bem visíveis. Mas mesmo que estejam ocultas, há maneiras mais positivas de as abordar. No fundo, como nos diagnósticos catastrofistas, está mais em causa o sadismo do analista que a busca da solução.

A quarta fonte de impossibilidade advém de objectivos incompatíveis. Nos casos raros em que se apontam propósitos, isso implica violar a lógica, desejar o inviável, impor o utópico, querer a contradição. Exige-se promoção da mudança e manutenção da situação, comer omeletes sem partir ovos. É comum nas contas, públicas ou privadas, forçar a aritmética anunciando subida de despesas, redução de receitas e défice. No fundo, a hipótese de partida é um almoço grátis.

Se na análise e definição de objectivos as coisas já vêm distorcidas, o pior surge na formulação de soluções. Aí, em vez de distinguir e separar dificuldades, abordando cada uma por sua vez, usa-se o método inverso. É comum empilhar todas as questões, muitas de origem bastante diferente, num único e enorme problema, que depois se revela inevitavelmente insolúvel. Não se analisa, amontoa-se. Não se investiga, confunde-se. Mesmo sob um único termo, como desemprego, crescimento, educação há, não um, mas enorme agregado de múltiplos dilemas, que deviam ser tratados individualmente. Aqui o mito dominante é o dos dois coelhos com uma cajadada. Esquecendo que essa possibilidade é uma raridade fortuita, pretende-se poupar esforço criando aglomerados tão ambíguos e complexos onde os coelhos se multiplicam.

Estes vícios podem servir, também eles, para nos deprimir. Afinal é por isto que as coisas não andam. E lá caímos no desânimo. A maneira certa de olhar é a inversa. Sobrevivemos até aqui apesar de sermos assim. Porque felizmente a realidade é muito mais que as nossas conversas e os problemas, mesmo colocados de forma insolúvel, acabam por encontrar solução.



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*João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa.

 

Publicado no Diário de Notícias dia 25 de Junho 2012

 

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